Paulo Mendes Campos (1922 – 1991) disse certa vez que o horror na vida de um romancista é ouvir, de um estranho qualquer, a frase “minha vida daria um romance”. Quando apresentadas ao escritor, muitas pessoas se arvoram no direito de contar detalhes e peripécias biográficas, convictas de que a própria vida é tão significativa que merece o registro em livro. Campos completava o raciocínio dizendo: “o que estes caras não sabem é que qualquer vida dá um romance. O problema é o estilo”.
Concordo totalmente com ele. Até empiricamente percebi isso: sou leitora voraz desde a infância e é claro que gostava de narrativas cheias de peripécias, mas logo descobri também que o resultado ficava melhor se os acontecimentos se aliassem a um “jeito de contar” que fizesse a leitura fluir e cativasse minha atenção.
O escritor americano Stephen King (1947…), prolífico escritor de boas peripécias, deu uma dica parecida através da boca de um personagem, em seu livro CORAÇÕES NA ATLÂNTIDA:
“leia às vezes pela história (…). Leia às vezes pelas palavras, a linguagem (…). Mas quando você achar um livro que tenha tanto boa escrita como boa história, guarde-o como um tesouro”.
De modo geral a Humanidade soube localizar e preservar esses “tesouros”, que juntavam enredos à boa carpintaria literária, alavancando-os ao status de clássicos da literatura. Um exemplo é AS AVENTURAS DE MARCO POLO. O comerciante veneziano Marco Polo (1254 – 1324) não foi o primeiro europeu a chegar à China, mas seu relato foi o primeiro a efetivamente virar best-seller e seduzir milhões de leitores. Por si só, suas aventuras eram extraordinárias. Mas se reconhece hoje a importância do escritor profissional Rusticiano de Pisa, que o ouviu e transformou sua narrativa oral em um livro que seduziu e seduz até hoje. Diz-se que navegantes como Cristóvão Colombo e Américo Vespuccio foram leitores entusiasmados da obra… vai saber? Quem sabe há um dedo de Marco Polo até na descoberta da América!
Se os fatos narrados compõem 50% do livro, sem dúvida a habilidade narrativa formam o restante. Pra isso, é preciso talento. E aí, como fica?
É possível aprender ou ensinar talento? Uma pessoa comum pode se tornar um grande escritor com sua força de vontade?
Hum, não sei. Acho que talento é inerente, a pessoa tem ou não aquele start, aquele algo a mais pra usar as palavras, escolher melhores vocábulos, sequenciar situações e construir a emoção em forma de palavras. Isso é ser um escritor.
E quanto à pessoa comum? E se aquele Fulano que dizia “minha vida daria um romance” resolvesse, ele próprio, registrar essa vida em livro, estaria fadado ao fracasso?
Bom, acredito que a leitura ajuda.
Muita leitura, de todo tipo de livro, autores de todas as épocas.
É preciso também um olhar atento, para reparar e reproduzir bons exemplos e modelos literários; esses são exercícios pertinentes. Há também que ter boa vontade de escrever e reescrever o texto quanto vezes forem necessárias, para perseguir a clareza, a concisão, a leveza.
Enfim, se você quiser ser um escritor, saiba que sua grande qualidade será a humildade: se você for bom e talentoso, sabe o quanto precisa trabalhar o texto para atingir um nível profissional. Se você não tem jeito pra coisa, seja humilde pra reconhecer-se escritor eventual e fraco… ou desista.
É melhor ser um bom leitor, empenhado em aprender e conhecer do que um pseudo escritor ruim, que só tem talento pra ser arrogante.
Oi Márcia,
Que boa reflexão sobre o ofício de escrever!
Não sei se este é o espaço certo para minha pergunta, mas aí vai ela:
Acredito que alguma vez na sua vida profissional, você tenha recebido uma crítica negativa. Como você lidou com ela?
Não me refiro àquela crítica que vem de uma genuína vontade de ajudar, de melhorar o texto, contribuir com o trabalho. Mas àquela crítica cheia de arrogância, da pessoa que se coloca numa posição muito superiora sua, entende?
Abração.
Adriana, esse tipo de crítica é geralmente invejosa ou dissimulada. A vida me ensinou a identificar o q é crítica viável, focada no texto, do q é pessoal ou maldoso. A primeira é benvinda, costumo atentar e muitas vezes acatar. A outra… deixo pra lá
A minha vida daria uma comedia, com alguns lances tragicos, quanto a ensinar talento, nao acho possivel, mas sim se pode e deve aprimorar.