Por toda minha vida fui uma leitora curiosa. Descobri também que tenho excelente memória do que li. Hoje, aos 64 anos, fico espantada por recordar de textos lidos há décadas! Nem sempre foram obras grandiosas, marcos da Alta Literatura; às vezes, aquelas leituras eram significativas para a época ou me deram motivos bem pessoais para se fixarem na memória. Seja por qual motivo, resolvi compartilhar as lembranças nesta série, LEITURAS QUE MARCAM VIDAS. Pode ser que algum desses livros faça eco em memória alheia, mas, mesmo que fique só na sugestão, espero despertar sua curiosidade. BOA LEITURA!

Reler um livro que te impressionou na juventude é como visitar amigo perdido no tempo e na vida… pode ser um grato encontro, emocionante e cheio de saudades. Foi como me senti diante de A VOLTA AO MUNDO EM OITENTA DIAS, de Jules Verne.

Confesso que tornei ao livro por motivo profissional, vou escrever uma adaptação, mas fiz a leitura do texto original, pejado de notas de rodapé e comentários dissertativos, históricos e geográficos, daquele longínquo ano de 1872, quando a obra foi publicada pela primeira vez. E quantas surpresas!

A sinopse básica do enredo é de amplo conhecimento público, já que o livro A VOLTA AO MUNDO EM OITENTA DIAS foi muito adaptado para cinema, TV e livros juvenis: Mr. Phileas Fogg é um gentleman inglês que, arrogante, aposta com amigos do clube, que conseguirá dar a volta ao mundo em 80 dias; tem um criado engraçadinho, Passepartout, cujo temperamento oposto cria um paralelo literário, numa relação similar a de Dom Quixote e Sancho Pança; seu grande rival para dificultar a viagem vem na figura de um obcecado oficial de justiça que acredita que Fogg é, na verdade, um ladrão de banco; peripécias acontecem o tempo todo, a maior delas quando Fogg e Passepartout impedem a imolação de Mrs. Alda, uma jovem indiana, que deveria ser queimada junto ao marido falecido, é esta mulher quem traz o contraponto romântico à história.

Está aí, em poucas linhas, A VOLTA AO MUNDO EM OITENTA DIAS.

Será?

Em minha releitura, percebi que não é bem assim… Ri muito da incongruente relação de um inglês fleumático e seu criado francês, homem emotivo e enérgico. Surpreendi-me em acompanhar a avalanche de dados estatísticos e históricos. Em tempos de pré-Google ou similares, isso demandava muita pesquisa e empenho!

Na biografia de Verne, destaco a informação que aqui compartilho, pois ele mesmo creditava sua arte à herança familiar: sua imaginação criativa vinha da exaltada inventividade materna e o rigor informativo vinha do pai, um burocrata meticuloso. Seus livros são a concretitude dessa tese.

Verne começa a carreira escrevendo “romances de viagem”, muito populares de meados a fim do século XIX, que mesclavam conhecimentos científicos a alguma narrativa, utilizando também personagens. A partir de 1862, contudo, sua obra ganha mais expressividade. É quando começa a publicar com Pierre-Jules Hetzel, o parceiro de futuros sucessos. É provável que este editor, visando a ampliar o público, fizesse significativas sugestões para tornar seus enredos mais envolventes. Isso deve ter acontecido em A VOLTA AO MUNDO EM OITENTA DIAS, porque, muito mais do que um relato detalhista de “pega trem aqui, vai a porto ali, visita ‘cidade X’ mais adiante e etc” seu romance de viagem ganha a dimensão literária de obra de profundo interesse humano.

Seus personagens são intensos e marcantes. Phileas Fogg, se é símbolo da alma nobre e imperturbável do gentleman inglês (quase uma caricatura), no decorrer da história ganha protagonismo heroico: em situações em que a maioria se acovardaria ou priorizaria o interesse pessoal, ele nem titubeia em mudar seus planos para salvar uma pessoa em risco, por exemplo, ou cumprir a palavra dada. Passepartout, se tem um perfil estereotipado do francês boa-praça, revela uma fidelidade amorosa pelo patrão que compensa algumas atitudes clichês.

O resultado é uma obra-prima do gênero aventura. Verne, além de nos estender a mão para acompanhá-lo na viagem, também nos apresenta pessoas “de carne e osso”, personagens sedutores que marcam nossa imaginação e – por que não? – a nossa vida, para sempre.

Reler o livro de Jules Verne é tornar à juventude. No final, estamos agindo como adolescentes excitados, torcendo pela vitória de Phileas Fogg, para que ele seja o primeiro homem a conseguir sua magistral VOLTA AO MUNDO EM OITENTA DIAS!