Tem uma pergunta que muita gente me faz, sobre o meu livro favorito. Geralmente a resposta decepciona quando digo “nenhum”. Na verdade, são muitos, porque sou uma leitora de escritores.

Como é que isso funciona?

Quando um livro desperta minha curiosidade, eu me empolgo em conhecer outros do escritor e, quando vou ver, li a obra inteira do cara.

Esse entusiasmo me leva a grande variedade. Não faço listas seletivas, priorizando grandes obras da cultura humana ou gênios da literatura. Todo livro pode merecer minha atenção; sou democraticamente eclética, passeio por gêneros tão distintos como ficção científica, romance histórico, terror, biografia, suspense ou policial.

O “autor da vez” é o norte-americano Charlie Donlea, que, apesar de ser médico, é autor de livros de suspense, bastante populares. Suas tramas são repletas de peripécias, e, se muitas vezes pouco verossímeis, têm lá sua lógica interna, justificando meu tempo e atenção. Já li meia dúzia de livros, como A GAROTA DO LAGO, NUNCA SAIA SOZINHO, OLHOS VAZIOS, PROCURE NAS CINZAS, UMA MULHER NA ESCRIDÃO, SUSSURROS DO PASSADO.

Não tenho preconceito contra a leitura de entretenimento. Nunca subestimo a força das narrativas de ficção. Acredito que, para qualquer pessoa, um livro despretensioso pode revelar um personagem ou reflexão, que, em algum momento, tenha a força de epifania ou revelação.

Quero destacar um trecho do romance A GAROTA DO LAGO, quando duas personagens conversam sobre a profissão de uma delas, que é padeira e tem de acordar de madrugada. A padeira adora o que faz e afirma: “Você não se apieda daqueles que odeiam seus trabalhos? Quer dizer, acordar todo dia e fazer algo que você não gosta não é um bom jeito de viver (…) Quando você é criança, não sabe o que quer. Nenhum menino de dez anos sonha em ser um contador. Nenhuma garotinha quer crescer e ser uma promotora de vendas. Certo? Mas se ninguém lhe diz para sonhar quando você é criança, então você simplesmente atravessa a vida e faz aquilo que todos fazem (…). Estou falando, faça o que gosta de fazer. E se você acabar não gostando, faça outra coisa”.

Acho que esse é um sábio conselho.

E concordo com sua reflexão pessimista: se não somos incentivados a sonhar, acabamos resignados com a normalidade, que tanta vezes é sinônimo de mediocridade. As pessoas precisam de estímulo para olhar além das fronteiras do senso-comum.

Aí eu me dou de exemplo: desde sempre desejava se escritora. Meu pai dizia que tinha aí uns cinco anos, sentava no colo dele e ditava um livro. Isso mesmo, uma história à maneira daquelas que eu ouvia (ainda nem sabia ler, mamãe era minha leitora ou era vovó quem me contava contos de fadas), com começo, meio e fim, narrativas de princesas e bruxas e animais falantes ou com personagens dos desenhos animados.

Ninguém me desestimulava ou ria das minhas ambições. Era um caminho difícil, isso eu sabia, mas jamais impossível.

Então trilhei esse caminho. Na adolescência, enviava contos para concursos literários em cidades de Interior. Na faculdade, ajudava a editar um jornalzinho acadêmico e sempre metia aqui e ali algum conto ou ensaio. Adulta, saí batalhando editora para o livro de estreia, CRESCER É PERIGOSO, que foi um imenso sucesso e aí…

Aí é história. São 40 anos de carreira, mais de 150 livros publicados, coordenação de coleções e convites para inúmeras bienais do livro e encontros com professores, como palestrante.

Gosto da minha carreira e me sinto realizada com minhas conquistas. Mas tudo começa lá atrás, quando ainda era uma menina de cinco anos de idade, que se permitia sonhar em ser escritora.

Então, se me permite, eu lhe dou o mesmo conselho do livro A GAROTA DO LAGO. Não se conforme com um trabalho, se você não gosta dele. Não atravesse a vida fazendo o que todos fazem apenas porque é mais confortável. Permita-se ter sonhos e vá atrás deles. Este pode ser um caminho mais áspero, mas certamente será mais gratificante.