Você conhece as obras de arte inspiradas pela gripe espanhola? Não?

Claro que não. Porque não houve.

Apesar da pandemia estender-se por dois anos pelo mundo (1918-1919), ceifando 50 milhões de vidas, não permeou o imaginários dos artistas e ponto de inspirar livros, quadros, poemas, músicas, peças de teatro… quando muito, foi aqui e ali coadjuvante de alguma trama, por eliminar X ou Y personagem, sem a carga dramática que o momento poderia requerer.

Hoje, 2020, sei de alguns escritores que escreve(ra)m sobre o tema, fui até convidada a participar de um livro inspirado pelo evento. Que me perdoem, mas não vou escrever ficção sobre a covid-19. Acredito que, exceto pela oportunidade de ocupar o tempo de artistas enfadados pela quarentena, o tema é factual e fadado a se refletir em obra menor.

Por quê?

Talvez porque, no fogo da hora, as tragédias são matéria para reflexão ligeira, contraditória e caótica – o artigo de jornal, a crônica, o assobio, talvez a anedota. A arte requer reflexão e distanciamento. Requer o vislumbre de alguma luz no fim do túnel. Infelizmente, agora, maio de 2020, me parece bem difícil prever quais os resultados sociais, políticos e econômicos da pandemia. Se quero ter em um livro o panorama do que vivemos durante a quarentena, preciso ter os contornos de que tipo de mundo virá. E ainda acho cedo para exercer a futurologia.

Neste ano de 2020 planejava escrever a continuação de meu romance BALADA DOS ROCKEIROS MORTOS E ANJOS CAÍDOS (ed. CHIADO BOOKS), escrito e majoritariamente ambientado em Portugal. Este segundo livro teria a mesma protagonista, mas o enredo se deslocaria para o Amapá, onde Renata participaria de uma expedição a Calçoene, proclamada “Stonehenge da Amazônia”. Já tinha acertado os detalhes para minha visita ao local, em agosto, com a permissão e auxílio do IPHAN e de arqueólogos de Macapá.

Bem, ainda acho que esta excursão é um excelente tema para um bom romance; mas a pandemia cancelou qualquer viagem. Vai daí que, quando e se conseguir visitar o Amapá, é provável que me veja diante de uma outra realidade. A pós-pandemia talvez revele malignidades piores que as do vírus, com a falência do sistema de saúde nos Estados do Amazonas e Amapá, por exemplo; o contágio de tribos indígenas isoladas e a incógnita com seu destino; o desmatamento brutal feito por madeireiros que apostam na impunidade “já que está todo mundo de olho na pandemia, a gente pode fazer o que quiser”. Talvez estes sejam temas alavancados no romance, quando e se puder escrevê-lo.

Porque – insisto – é cedo para fazer planos artísticos com a Covid-19.

O mundo pós-pandêmico é uma incógnita. Não me sinto confortável sequer pra fazer um esboço da obra, com os indícios atuais. Coisa que fez Alfred Hitchcock, em 1945, quando já escrevia o roteiro do filme INTERLÚDIO (Notorius, 1946) antes do armistício pôr fim à Segunda Guerra. Sua história antecipou a guerra fria, com seu jogo de espionagem e contraespionagem. Cary Grant interpreta o espião americano que chantageia Ingrid Bergman, para que ela se case com Claude Rains, agente nazista escondido no Rio de janeiro. Mesmo apaixonado, Grant despreza a mulher, por imaginá-la simpatizante do nazismo e manipuladora. O resultado é um filme realista (mesmo com as “paisagens cariocas” de estúdio hollywoodiano) e sombrio, filmado imediatamente após o término da guerra e oportuno no amargor de personagens ainda traumatizados pelo que viveram.

Citei INTERLÚDIO e não foi à-toa, porque o revi recentemente. Aliás, este é um efeito colateral positivo da quarentena, a oportunidade de rever filmes ou livros. Por indicação de um amigo, acessei no Youtube o Canal Antiqua com mais de 200 filmes preto e branco, gratuitos, obras de Kurosawa, Fellini, Pasolini, John Ford, John Huston, com atores como Bette Davis, Charlton Heston, Gina Lolobrigida, Humphrey Bogart, Marilyn Monroe, Steve MacQueen, John Wayne e muitíssimos etcéteras que você imaginar. Vá ver, vá! Delicie-se.

Porque eu estou me deliciando com estes filmes. E volto ao tema no próximo GARRAFA AO MAR.