Há uns quinze anos, fazia a costumeira palestra sobre meus livros, para alunos de uma escola. No intervalo, comentei na sala dos professores sobre um livro que estava lendo, cujo tema era o “fim da escola”. O texto assinalava que, exceto pela socialização, o aluno recebia pouco; que o modelo-escola tradicional tinha uns 300 anos e se desgastava. Que se podia aqui e ali acrescentar alguma novidadezinha ou mudar a nomenclatura, mas a realidade era a aula expositiva, com turmas de 30/40 alunos sentados diante do mestre que rabiscava num quadro-negro (ou flip chart ou lousa etc) com um giz (ou bastão ou marcador etc). Diante de novas tecnologias e da popularização da Internet, até quando esse modelo poderia resistir?
A reação dos professores variou da indiferença à fúria. A maioria acreditava que, se mudanças viriam, “não seria no seu tempo”. Um ou outro mostrava curiosidade com “o que poderia mudar” e um deles foi visceral, reagiu à ideia de “fim da escola” como se ouvisse uma heresia (“Deus está morto?”).
Pois bem: quer queira quer não, o tempo da mudança chegou.
Estava ou não preparado, o professor precisou se reinventar em tempos de corona vírus, até por determinação de Ministério ou secretarias da Educação dos Estados, como forma de manter os alunos em quarentena, mas recebendo algum tipo de educação.

Algumas escolas particulares reagiram com mais prontidão e preparo. Houve estabelecimentos que anteciparam férias escolares, para que professores pudessem gravar suas aulas, oferecendo videoconferências e debates com as turmas. Houve – isso eu soube de fonte fidedigna – alunos que, mais descolados com as tecnologias, invadiram as aulas online da sua (cara) escola particular com cenas pornográficas, “só pra zoar” com mestres que conheciam bem pouco das ferramentas que precisavam usar. Talvez esses próprios alunos, mesmo que mais “antenados” com as tecnologias, no fundo também compartilhavam a mentalidade retrógrada daqueles professor de 15 anos atrás, crentes de que “aulas de verdade” só presenciais e expositivas. Não sei.
Sei que mudar mentalidades é tarefa muito difícil; vive-se um desafio.
Pode ser que o lockdown seja imperativo ou que se abrevie a quarentena nos próximos meses, mas a educação à distância se mostra necessária e eficaz. O grau de eficiência é que está em discussão. Espero sinceramente que a maioria dos professores não reaja como aquele professor que, há 15 anos, acreditava-me uma herege em supor o fim das escola e que se incorporem novas estratégias e recursos para informar, formar e avaliar essa geração de brasileirinhos pós-pandemia.