A gente fala muito e diz pouco. Faça a experiência: registre por escrito uma conversa de celular, digamos, de 5 minutos. Vai se surpreender: primeiro, com o calhamaço de papel. Depois, pela quantidade de “poxa, né, hum, jura?, sabe”, além dos resmungos e repetições.

Isso é normal numa conversa, mas a reprodução de todos os maneirismos da fala, num texto, o tornará literário?

Duvido. A oralidade de um bate-papo surge com esses pequenos toques (estou ouvindo), ênfases (repetimos pra que o interlocutor entenda mesmo o que queremos dizer) e até tiques pessoais (gente que tem um certo bordão, por exemplo, dizer “né” ao concluir frases). Além, é claro, do uso de orações coordenadas. A subordinação não é típica da fala… quem é que diz, por exemplo, sem ler um texto, “caso os homens não se conscientizem dos problemas ambientais, certamente arcarão com graves consequências porque, no nosso cotidiano, ocorrerão mudanças graves”.

Esse mesmo conteúdo, apesar de denotativo (típico do texto dissertativo), também pode ser assunto de um diálogo. Porém, de um modo coloquial: “poxa, gente, se os homens não se conscientizarem logo dos problemas ambientais, a coisa vai ficar difícil. O que vai ter de problema! No dia-a-dia de todos nós, muita coisa vai mudar”.

Um bom diálogo literário tem de ser coloquial e verossímil.

Explicando: coloquialidade é a habilidade de registrar, num diálogo, a aparência da fala, a sugestão de oralidade. Mas você já percebeu que a coisa, de verdade, é repetitiva, prolixa, cheia de resmungos e onomatopeias. Registrar tudo poder ser realista, mas não é artístico, não houve elaboração literária da fala do personagem.

A verossimilhança é a elaboração artística da verdade. É o “parece, mas não é” da literatura.

O escritor registra os maneirismos da fala (alguma repetição, uns resmungos, ênfase aqui e ali do que o personagem quer comunicar) mas de maneira filtrada, sintética, focando no essencial pra que o leitor se inteire do assunto do diálogo.

Bons diálogos são ferramentas essenciais da construção da fala de personagens cativantes. O candidato a escritor deve se exercitar em reproduzir a oralidade, mas de olho no efeito verossímil e sintético da realidade. Aqui, podemos também contar com outras ferramentas. Se a conversa é longa e detalhada demais, com excessivas informações, pode vir não na forma de discurso direto (diálogos) mas como discurso indireto (quando o narrador assume a fala). Por exemplo: “Maria falou longamente, contou a Eduardo tudo o que ia em sua alma, seus medos, sua tristeza com a morte dos pais, a necessidade de encarar mudanças”. Provavelmente o registro desse monólogo de Maria levaria várias páginas que foram sintetizadas em três linhas em discurso indireto.

O escritor talentoso sabe, até intuitivamente, qual a ferramenta certa para a eficaz comunicação de seus personagens. Quando a coloquialidade é necessária, registram-se longos e emotivos diálogos; quando é necessário priorizar o ritmo, o texto resume o assunto da conversa em poucos itens.

De todo modo, o uso dos discursos é mais um elemento que permite a transcendência do mero registro das falas para a elaboração de um texto efetivamente eficaz e literário.