Em tempos de isolamento social estar só pode ser um problema. Minha saída foi a cachorroterapia!

Esta garrafa ao mar tem uma mensagem bem pessoal. Assumo que sou gatófila. Nos meus 62 anos de idade, lembro aí de três cachorros, mas certamente de mais de uma dúzia de gatos significativos na minha vida.

A definição de gatófila vem porque gosto do bicho gato; de qualquer gato, seja filhote ou velhote, branco, preto, malhado.

A natureza felina me fascina: seus hábitos higiênicos, sua independência e afetividade seletiva. Já o bicho-cão não me atrai, aquele cachorro básico, que late à beça e coloca olhos desesperadamente pidões, “me ame, me cuide, me agrade, faço-qualquer-coisa-por-você”, huummmm… este é um tipo de amor incômodo. Desagradável. Quase perigoso e, se acontecer entre humanos, valha-me Deus e me livre desta sina!

Estou contando isso porque, durante os primeiros dois meses de quarentena, convivi apenas com Marie, uma básica gata preta, que estava comigo há um ano e meio. Na verdade, adotei duas irmãs, Marie e Meire. Quando fui viajar ao Peru por quinze dias, deixei-as (já castradas, vacinadas etc) assistidas por uma pessoa que sempre vinha em casa mas, mesmo assim, Meire nos desprezou e se mandou. Marie se manteve firme na casa; quando voltei, fui recebida com muito carinho. Marie dormia na minha cama, via TV a meu lado no sofá, era amigona. E há um mês, sumiu. Foi dar a básica voltinha pelos telhados e não retornou.

Quase enlouqueci.

Na primeira madrugada de seu sumiço, tive um surto de ansiedade que me deu vômitos e diarreia. Conversei com vizinhos, minha filha colocou anúncio em sites de busca de pets perdidos, nada.

Prefiro imaginar-lhe um trajeto otimista, que ela foi perseguindo um passarinho pelos telhados, perdeu o faro, achou nova casa que a hospeda com comidinhas e carinhos. Makthoub, como dizem os árabes, “assim estava escrito”, é o destino. Aceite. Mas a solidão e depressão bateram forte; levantar de manhã tornava-se pesado, inútil, já que minha primeira atitude era reforçar o prato de ração de Marie e trocar a sua água.

Então tomei uma decisão. A pet-terapia sempre me pareceu efetiva e salutar. Queria um novo bicho de estimação.

Optei por cachorro até porque requer um líder da matilha e fica mais confortável no confinamento do lar. Mas, pelo meu perfil gatófilo, sabia que não podia nem devia ser qualquer cachorro. Seria injusto comigo e com ele se, num impulso de desespero por companhia, recolhesse o primeiro cão oferecido em abrigo, sem que lhe sentisse amor…

Sinceridade: conviver com alguém só pela piedade e carência é uma forma de relacionamento pernicioso.

Se isso acontece entre humanos, então, é ato certo de uma conexão daninha, prejudicial à saúde mental dos envolvidos (lembrei, assim, do título de uma comédia, “não sou feliz, mas tenho marido”)… Mesmo entre gente e bicho, o amor e amizade carecem de afeição, acolhimento sincero, simpatia mútua, respeito pela personalidade. Parece que tudo isso vem acontecendo entre mim e Yuri.

Há uma semana o filhote de cocker spaniel entrou em minha vida.

Ele não tem dois meses, seu cotidiano é um turbilhão de corre-corre-morde-tudo-come-come-faz-cocô-faz-xixi-dorme-dorme. Tem especial predileção em morder os dedos de meus pés ou minhas orelhas. Por falar em orelhas, são sempre elas que “comem” ou “bebem” em primeiro lugar; o universo inteiro está á sua disposição para ser descoberto. E preencheu em meu coração todos os vazios que a gata desaparecida havia aberto.

Para concluir, lembro de uma matéria que li, a respeito de cães e homens. Que a domesticação do cão é a vitória do mais dócil. Há prováveis dez mil anos, os primeiros grupos humanos repararam naqueles lobos mais fracos do bando lupino, que preferiam seguir os homens para comer os restos de seus alimentos. Estas tribos pré-históricas começaram a atrair estes lobos, incentivaram cruzamentos com fêmeas também dóceis e, com a evolução, a raça canina foi-se distanciando de seus parentes-lobos. Os cães nos escolheram para seus líderes da matilha e assim começou a longa história de amor entre homens e cães.

A minha história porém começa agora. Eu e Yuri temos muito que aprender sobre nós; muitas refeições (adora pera e maçã), atitudes e gestos a compartilhar. E, certamente, muito afeto a dividir.