A voz do povo diz que só quando uma mulher está grávida é que repara na quantidade de “mulheres barrigudas” andando pela rua… Na verdade, a gente só se identifica mesmo com o que vivencia. Creio que o mesmo principio acontece com cachorros e seus donos. Só depois que colocamos um pet em nossas vidas é que reparamos em quantos cães existem pela cidade e o que ela – de bom ou mau – oferece a nossos amigos caninos.
Há cinco meses Yuri, um filhote de cocker spaniel, entrou em minha vida. É esperto, lindo, uma força da natureza!
Já comeu dois chinelos, detonou a primeira cama (era fofinha e deliciosa, pelo visto!), o estofo do sofá e vários brinquedinhos. Pra conter tanta energia destrutiva, ele está em adestramento com uma profissional, além de contar com um dog walker, que faz uma hora de caminhada puxada com ele. Mesmo assim, ainda tenho de proporcionar outra saidinha diária. É aí que a cidade versus cães acaba criando suas dificuldades.
Começa que, se a gente é consciente da chatice que são os dejetos caninos na calçada, leva papel ou saquinho pra recolher cocô. Então vem o drama de ONDE colocar aquilo.
Ainda que meu bairro, Pompeia, seja generoso com lixeiras, mesmo assim… o povo abusa.
A vizinha da frente, coitada, enlouqueceu. Mora na esquina e, nos fins de semana, sua lixeira era literalmente coberta com todo tipo de resíduo, muito além dos discretos saquinhos de “produto canino”. As pessoas agiam como se o coletor público as “liberasse” de guardar o seu lixo até o dia certo da coleta; não viam aquilo como um paliativo higiênico pra quem caminhava com seus cães.
Caminhadas e passeios! Em típico caso de síndrome da grávida, citada no início dessa crônica, antes de ser dona de cachorro achava que a zona oeste de São Paulo, capital, era generosa com parquinhos e áreas de lazer: parque da Água Branca, Reservatório do Sumaré, Memorial da América Latina, Sesc Pompeia… ledo engano. Todas essas zonas são proibidas para cães e, mesmo amplas, não reservam sequer um cantinho pra animais de estimação. Restam alguns playgrounds ou pracinhas encravadas entre prédios, mas de uso sorrateiro, parecemos mais invasores do que usuários habilitados e regulares. Espero que, após as eleições municipais, muitos vereadores foquem nos direitos caninos ao espaço urbano, não só como plataforma de campanha, mas como ação política.
Reli essa crônica e a achei ranzinza. Parece que só assinalei problemas na convivência com um cachorro e que me arrependo de tê-lo adotado. Não, nunca! Yuri é um filhote cheio de energia e eu sou uma senhora de 63 anos, claro que temos de nos adequar… mas o que ele me trouxe de carinho, o modo como preencheu meu tempo durante a quarentena, a descoberta diária de suas habilidades e inteligência, tudo isso foi e é a concretização de um relacionamento repleto de sortilégios. Um cachorro é um amigo de quatro patas. Como dizem por aí, “cachorro é tudo de bom”.