lutar com palavras
é a luta mais vã”

Há uma frase atribuída a Carlos Drummond de Andrade ( 1902 – 1987) que afirma: “o adjetivo, quando não acrescenta, mata”. Isso resume o essencial sobre estilo. Como poeta, Drummond foi um perfeccionista que buscava exaustivamente a palavra certa; por isso, questionava os exageros que, na ilusão de acrescentarem valores, matavam a expressão.

Um exemplo: o substantivo MULHER refere-se à fêmea do homem. Acrescido do adjetivo “bela”, qualifica o tipo de mulher de que estamos falando. Mas é pouco. Pode-se aumentar a qualificação, “mulher bela, incrível, sedutora, maravilhosa”; isso só traz a enumeração de qualidades, será uma frase realmente expressiva sobre a beleza da mulher? Veja outro exemplo, “mulher bela, do tipo que entra na sala e faz todos se calarem; eles, de admiração e desejo e elas, de inveja”. Bem, essa segunda opção enriquece a imaginação do leitor e nos traz um retrato literário muito mais empolgante do que aquele que acrescentou um rol de adjetivos.

A linguagem conotativa (literária) recorre a diversos artifícios. Quem estuda Teoria Literária sabe disso, avaliando metáforas, metonímias, sinestesias etc.. A questão, para quem se arrisca na difícil tarefa de “lutar com as palavras” não é de nomenclatura, mas de acerto. O escritor – o bom e realmente eficaz escritor – sabe empiricamente qual a palavra, imagem, comparação, metáfora deve usar para alcançar o máximo de clareza e expressividade e, assim, emocionar seu leitor.

Há metáforas e imagens recorrentes na História literária de diversos povos, em diversas épocas, por sua eficácia e presteza. Por exemplo, a que compara MULHER e FLOR. Muitas características podem ser coincidentes: a flor é suave, frágil, perfumada, bela, colorida. Muitas mulheres podem se qualificar com esses mesmos adjetivos. Porém, de tão usadas, essas imagens tendem a se desgastar no lugar-comum. Enviar um cartão de aniversário com frase tipo “Fulana, envio flores para quem é tão linda como uma flor” uh, pode causar efeito oposto na aniversariante que, em vez de se sentir lisonjeada, considera o missivista um bobalhão pouco criativo…

Para os candidatos a poetas, a sugestão é ficar de olhos atentos para boas metáforas, comparações criativas, perspicazes, que causem impacto e empatia nos leitores. Você pode dizer “Fulana, meu coração queima por você” e estará recorrendo a outra metáfora milenar, a que compara AMOR e FOGO: afinal, do mesmo modo que o fogo é ardente, poderoso, atraente, dolorido, intenso etc, o amor por alguém especial também causa estas sensações. Agora, o poeta poderia buscar outras similaridades: “Seu desamor machuca como espinho enfiado debaixo da unha”. Essa dor parece muito mais concreta e real do que um genérico “meu coração arde por você”. O efeito poético ganha em expressividade.

Aprimorar o estilo depende da prática. Os candidatos a poeta devem escrever muito, sempre; devem ler muito e sempre atentamente, a tudo que foi desenvolvido por outros escritores. Não é vergonha parodiar um mestre, escrever a la Drummond ou Bandeira, por exemplo, até descobrir sozinho uma imagem que alavanque seu trabalho. E claro! Sempre é preciso paciência.

Drummond dizia que “lutar com palavras é a luta mais vã”. Em seu poema, contudo, também se consolava e incentivava:

“palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate”.