“Eu não tenho onde morar…
é por isso que eu moro na areia”
(Dorival Caymmi)
Li os livros de José de Alencar (1829-1877) pela primeira vez na adolescência. Teria aí uns 13 anos e o romance SENHORA (1875) me impressionou bastante. Senão por outros motivos, por um peculiar detalhe na biografia do protagonista Fernando Seixas: ele se vestia na moda, pegava “carros de aluguel”, frequentava salões e teatros, aspirava a um casamento que o deixasse bem de vida e… morava num lugarzinho miserável! Todos os seus recursos financeiros e esforços focavam o exterior, o manter as aparências sociais. Achei aquilo um absurdo.
Não sei se o comportamento do Seixas era inspirado em jovens europeus vivenciando a máxima “posso estar duro, mas estou na moda”; o que sei é que suas prioridades em relação à moradia o colocavam como representante digno de um segmento nacional. Suas aspirações diferiam do que ocorria em outros países. Pela época de publicação de SENHORA, por exemplo, a guerra Civil terminara há dez anos nos EUA. O slogan “go west, young man” reverberava nos ouvidos de dezenas de milhares de jovens que seguiram nas caravanas, dispostos a desbravar e povoar o meio Oeste americano.
Qual seu grande sonho?
Uma casa! Receber seu lote de terra, ter algum gado, uma esposa que bordasse “home, sweet home” para afixar na parede do lar repleto de filhos… Se o fazendeiro precisasse de ajuda, teria gente temporária, que logo partiria atrás do mesmo ideal “home, sweet home”.
A gente aqui teve pouco apego a esse tipo de lar, mesmo quando havia condições para isso. Claro, nobres e ricos construíam seus casarões (com senzalas, não esqueçamos que o fim da escravidão só ocorreu dez anos pós-morte de Alencar), mas a realidade urbana carioca, por exemplo, aglomerava o povo em casas geminadas e cortiços (leia O CORTIÇO, de Aluísio Azevedo – 1857- 1913).

Na República as coisas não eram tão diferentes quanto à moradia urbana, o que facilitou a propagação da gripe espanhola em 1918. O contágio foi tão rápido e voraz que, em 1919, até o presidente da época, Rodrigues Alves, havia morrido por causa da pandemia. Foram 35.000 mortes atribuídas à doença no Brasil e 50 milhões de óbitos no planeta.
Por que faço estas constatações entre moradia e pandemia?
Porque, quando governantes e mídia veiculam o bordão FIQUE EM CASA como panaceia para conter o COVID-19, parece-me que consideram muito mais o modelo “home sweet home” americano do que nosso brasileiríssimo jeito de morar atravancado. Gente, deixo claro que DEFENDO A QUARENTENA, não me entendam mal, o que questiono é o modo autoritário e insensível de cobrar tal exigência da população. Diante do taxativo FIQUE EM CASA!, muita gente pode se perguntar: QUE casa?
A mentalidade brasileira nem sempre privilegiou uma boa moradia;
mesmo os de classe média, a la Seixas do Alencar, preferiram às vezes desfilar de carro zero a ter uma residência mais confortável. As “comunidades” eufemizam a secular e terrível condição de favelas. Há também aqueles, privilegiados “proprietários”, que tantas outras vezes compartilham o espaço residencial com gerações de parentes. Dá-lhe puxadinhos e assobradados, para conter agregados como genros, netos, amasiados de netos, sobrinhos etc afora. Tá certo defender o isolamento social, a home office, a quarentena obrigatória que se revela a cada dia a maneira mais eficaz de combater o coronavírus no mundo. Mas que se evite o autoritarismo feroz e anti-povo, “eles não obedecem”, como se tanta e tanta gente, no Brasil, não tivesse ainda de cantar, junto com Dorival Caymmi, a resposta: “Eu não tenho onde morar… é por isso que eu moro na areia”.*
* disco EU NÃO TENHO ONDE MORAR (1960) – Dorival Caymmi
Boa iniciativa
Estava relendo o Cortiço, migração e imigração, diferenças culturais, casos de adultério, exploração econômica e social, se não considerar o período que foi escrito, pode se dizer Muito Atual, não mudou muito.