Se você nasceu já no século XXI, é provável que nem entenda direito o que vou comentar. É da sua geração surpreender-se e até se divertir com os “descalabros” que pessoas mais velhas cometem quando se referem ao mundo digital ou utilizam ferramentas da Internet. Agora, quem sabe, lendo o texto a seguir, tenha um pouco mais empatia com as outras gerações…

Até fins dos anos 1980, pode-se supor que três gerações conviviam com as mesmas conquistas tecnológicas.

Avós, pais e netos usavam a energia elétrica cotidianamente, em utensílios como máquina de lavar, refrigeradores, ventiladores, micro-ondas, aparelhos de som e TV. Dirigiam automóveis, ouviam música nos rádios, viajavam de avião, assistiam aos filmes no cinema, usavam telefones para manter contato com os parentes e escreviam textos em máquinas de escrever. Aqui e ali, com o passar de décadas, havia avanços: os motores ficavam mais silenciosos e econômicos; a lataria dos carros ganhava fibra de vidro em vez de aço; o som se aprimorava em alto-falantes mais potentes. Mas, no geral, havia continuidade no propósito e configuração dos inventos.

Para muitas dessas invenções, a premissa segue verdadeira. Quanto à área das comunicações, contudo, as mudanças foram significativas. A telefonia celular e a popularização dos pc (personal computer) realmente ocasionaram uma revolução. Hoje, se você tem uma dúvida sobre o significado de uma palavra ou que saber mais, por exemplo, sobre uma determinada região, o que faz? Saca imediatamente do celular e tecla no Google. Em segundos, tem dezenas de possíveis definições do termo ou mil e uma informações sobre onde fica X, o que oferece em termos de turismo ou todo um levantamento histórico – com diferentes versões, até, sobre sua origem. Essa praticidade e objetividade é o oposto do que teríamos antes: folhear dicionário, ir a biblioteca para consultar enciclopédias, procurar livros com divergentes opiniões… tudo lento, minucioso, trabalhoso. Era nosso mundo analógico.

O universo multifacetado de hoje requer pessoas antenadas em uma, dez, cem tarefas.

Parece normal resolvermos dúvidas pelo Google ou fazermos compras virtuais depois de breve pesquisa de preços (também em ferramentas que comparam lojas e produtos). Conferimos saldo bancário e pagamos contas por aplicativo, saímos de casa chamando carro pelo 99 ou Uber e reservamos ingressos no cinema ou teatro por outros aplicativos. É normalíssimo termos amigos pelo Facebook e marcarmos encontros pelo WhatsApp ou resolvermos problemas do home office por Meet, Jitsi Meet, Hangouts ou Zoom; enviarmos boas fotos pelo Telegram ou acertarmos nosso almoço pelo Uber Eats ou iFood. Certas pessoas mais idosas já estarão aturdidas e confusas só com essa nomenclatura, dirá mostrarem-se usuárias de tamanha evolução digital.

É um mundo novo.

Que facilita a vida em muitos aspectos; que nos une em “um milhão de amigos”, como cantava Roberto Carlos numa canção de 2005 (talvez antenado com o Facebook, será?). Que nos fascina e aturde com as centenas de páginas disponíveis para consulta, ao mero teclar de uma palavra em celular.

Porém o que nos une também nos afasta.

O que potencializa e facilita a vida também revela uma nefasta face discriminatória. As gerações mais antigas se vêem excluídas desse universo, caso não se proponham a compreendê-lo. E há outra exclusão, mais perversa: esse universo digital nem sempre é barato. Requer bons celulares, contas de telefonia, serviços de wi-fi e endereços formais. Há no Brasil significativas parcelas da população que não têm acesso a isso. Que acabam excluídas do “novo mundo” por força de dificuldades econômicas.

A “aldeia global” realmente se instalou no planeta. O filósofo canadense Herbert McLuhan, mesmo nos longínquos anos 1960, profetizava o fato de que o progresso tecnológico tendia a reduzir o planeta à condição de uma aldeia: a concretização de um mundo em que todos estariam, de certa forma, interligados. Pobres daqueles que, pelas dificuldades várias, deficiência cognitiva pela idade, falta de dinheiro ou de referências, acabam excluídos da taba. A vida sem acesso à tecnologia pode ser bem mais solitária e difícil do que nos antiquados tempos analógicos.