Quando morei em Portugal, para pesquisar e escrever meu romance Balada dos rockeiros mortos e anjos caídos, tive a grata experiência de assistir às séries televisivas inglesas da BBC.

Aqui no Brasil volta e meia chega alguma coisa, mas de modo irregular e incompleto… a TV Cultura apresentou duas temporadas do excelente Padre Brown, mas já parou. Vi uns poucos episódios de Comissário Maigret, com Rowan Atkinson ou Endevour, mas sem continuidade, na programação do People + Arts ou Eurochannel. E só.

Na quarentena, o bom “efeito colateral” foi ter tempo e disposição de pesquisar. O YouTube me presentou com inúmeros episódios de POIROT, maravilhosamente interpretado por David Suchet; sem dúvida o melhor alter ego do detetive belga, criação da escritora Agatha Christie.

Suchet deu alma e voz ao personagem por mais de vinte anos. Em 1989 a BBC começou a adaptar a obra de Agatha Christie. Foram 70 episódios primorosos: O Assassinato de Roger Ackroyd, Morte No Nilo, Os Relógios, Tragédia em Três Atos, A Noite das Bruxas, Depois do Funeral, O Natal de Hercule Poirot etc etc etc.

Boa parte das histórias se passa nos anos 1930, numa Inglaterra assombrada pela possibilidade de nova guerra contra a Alemanha. A adaptação é fiel à obra da autora quanto ao enredo, mas principalmente quanto à atmosfera. Tudo é sutil, elegante, sofisticado.

Nos livros de Agatha Christie, até pra morrer é preciso ter classe!

Como Hercule Poirot adora a sofisticação da boa comida, hoteis requintados e ambientes luxuosos, atende prazerosamente os chamados da aristocracia inglesa. A série então esbanja cenários deslumbrantes, palacetes campestres, clubes de elite, povoados por mulheres lindas, com aqueles chapéus elaborados, roupas de corte impecável e cores extravagantes, pijamas e robes de seda e batons do mais intenso vermelho!

Tanto as vilãs como as vítimas de Christie têm de esbanjar glamour… seja pra esfaquear a vítima ou morrer envenenada!

O universo “criminoso” de Christie é irreal? É escapismo? Suas tramas exageram em herdeiros descontentes e homicidas, chantagistas que acabam eliminados, casos de adultério que se resolvem pelo crime em vez de divórcio? Pois é, pode ser. Mas para o leitor – ou no caso da série POIROT da BBC, o espectador – esse universo é delicioso.

Afinal, o próprio David Suchet, na autobiografia lançada em 2019 na Inglaterra, revela que ainda sente muita saudade do personagem. Afirma:

Poirot me levou ao hemisfério da fama… Recebi milhares de cartas dos meus fãs de Poirot de todo o mundo – no auge da minha carreira, havia 730 milhões de espectadores – dizendo que, sempre que estavam estressados, assistiam a um Poirot”.

Você não precisa esperar pelo estresse para se deliciar com os livros de Agatha Christie ou pela série POIROT. No Youtube, basta pesquisar pelo nome e, se quiser, assinale “Poirot em português”. Vão surgir dezenas de filmes e… ah! Como um bônus, alguns episódios também da BBC, com outra personagem imortal da escritora, a perspicaz Miss Marple.

Boa diversão!