Virei avó. Meu neto Calvin nasceu no dia 16 de abril. Ser avó trouxe-me emoções intensas, que despertaram reminiscências e criaram antecipações…
Minha avó se chamava Efrosina Telpizov, mas todo mundo no bairro da Vila Zelina a conhecia como Dona Rosa. Com meu avô Jorge, saiu de terras longínquas com três filhos, na década de 1920. Um filho morreu no Rio Grande do Sul; minha mãe Elisabeth, filha caçula, nasceu em São Paulo.
Pouco lembro de meus avós paternos ou do vô Jorge, que faleceu quando eu estava com 5 anos, mas tive o privilégio de ter contato próximo com “vó Rosa”, dividimos o quarto até meus 18 anos. Adorava ouvir suas histórias e lembranças da Rússia e dos primeiros tempos de Brasil.
Vovó se tornou brasileira a ponto de ler o jornal em Português e agradecia ao que conquistou por aqui. Mesmo assim nunca se esqueceu da terra onde nasceu. Tanto que, viúva e herdeira de um patrimoniozinho, tomou a decisão de revisitar seu país. Aí descobriu: que país?
Sua pátria, a Bessarábia, passou por tantas mudanças políticas que era difícil identificar uma cidadania. Ela se definia “russa”, mas, pra conseguir o visto, em 1970, acabou tendo de viajar com passaporte de “apátrida”.
Gente, isso foi no exato ano de 1970! Auge da Guerra Fria no mundo e da ditadura militar do governo Médici no Brasil. Época de turismo raro e caro, ainda mais de um país sul-americano alinhado aos EUA para um país da “cortina de ferro”… Vovó, septuagenária, com sérios problemas de artrite, não teve medo; nem de política, nem de desafios turísticos. Perdeu em Frankfurt o avião pra Moscou, pegou um voo indiano em que só se falava inglês, virou-se muito bem com mímica, conseguiu na capital um transporte até sua aldeia natal, onde reencontrou primos e até reviu a casa onde havia nascido, que permanecia de pé, mesmo depois de duas Guerras Mundiais! Voltou ao Brasil carregada de presentes e lembranças, falava até em retornar!
Vovó realmente fazia parte de um corajoso grupo de pessoas. E aqui estendo a minha admiração não só a ela, mas a todos os imigrantes, que abandonaram seus países, família, costumes, idioma e se aventuraram por aqui, ajudando a construir o Brasil.
Coragem é uma virtude extraordinária da raça humana. Somos o que somos graças a esse arrojo e à curiosidade, que permitiu que o homem ocupasse – para o bem ou para o mal – o planeta inteiro, do polo Norte ao Sahara, de ilhas perdidas no Pacífico a cidades de altiplano. O ser humano é um sobrevivente. E sua resiliência me causa admiração.
Já que cito coragem e perseverança, quero estender o elogio aos meus próximos, meu neto Calvin e à sua mãe, Michele. Sem diminuir a dedicação de meu filho Igor, entendo que a gravidez e o parto são tarefas femininas, com seus desafios específicos. Foram nove meses de estresse. Além da ansiedade normal em qualquer gravidez, há a insegurança da covid-19, a necessária quarentena, as notícias contraditórias sobre vacinação. Houve suspense até na confirmação de vaga e internação para o parto, em tempos de hospitais lotados. Mas deu tudo certo: o nenê nasceu com mais de 3 quilos, é lindo, saudável, mãe e filho passam bem.
A chegada de Calvin me deixa feliz, pelo que representa de herança familiar, da continuidade de sangue. Porém seu nascimento me parece um legado maior. Se a pandemia é um amplo desafio para a Humanidade, ter um bebê em casa é um gesto de resistência. E de amor. Parabéns, Calvin e Michele. Orgulho-me de vocês.
Parabens, pelo netinho, e uma emocao enorme.
Que tenha a forca de vovo Efrosina.