Yuri entrou em minha vida faz um mês. Quem leu CACHORROTERAPIA sabe que sempre fui mais gatófila do que dona de cães e tenho de me acostumar com muita coisa na convivência com um filhote de cocker spaniel. Deram-me a dica de que um cãozinho precisa de agasalho no inverno. Aí tive a primeira descoberta…
QUE HÁ MODA DE CACHORRO. Também descobri, surpresa, que existe… CACHORRO DA MODA!
Gente, é imensa a quantidade de sites especializados em todo tipo de roupa, agasalho, fantasia, acessórios etcetcetc pra cachorro! As pessoas vestem seus cães (no caso, cadelas), com vestidos longos ou saias de bailarina; fantasias de super-heróis; apetrechos que lhes dão bigodes, óculos, chapéus… há mesmo roupas que formam bichos, para outro bicho! Coisas bem divertidas.
Acabei aderindo. Confesso contrita o meu “ataque” à cachorridade do pobre Yuri com uma linda fantasia de girafa! Vesti o agasalho e fui recebida com um olhar assassino, sem a menor vontade de me abanar as grandes e novas orelhas ou o seu duplo rabo cor-de-laranja.
Agora, além de me assumir neófita nesse universo da moda, fui surpreendida por outro modismo: o da raça dos cães. Em sala de espera de veterinária, uma dona de pomposo shih-tzu me esnobou com um “oh, ele é cocker spaniel inglês ou americano? Faz tanto tempo que não via um cachorro dessa raça”.
Não entendi. Na verdade, adotei um cocker spaniel por memória afetiva. Acho que qualquer um com mais de 50 anos lembra da Lady, dourada e de olhos mansos, do filme A Dama E O Vagabundo, da Disney. Só depois que Yuri chegou é que fui me dar conta que há dois segmentos da raça, a tradicional inglesa e a americana. Fui procurar mais detalhes em sites de criadores; alguns efetivamente “xiitas” em defender as qualidades de cada tipo. Há quem afirmava categoricamente que a Lady era MESMO uma cocker spaniel AMERICANA! God save America, yes! Tirando radicalismos, na verdade a raça é a mesma; parece só que os cockers ingleses são um pouco maiores e têm mais pelos nas patas traseiras. De todo modo, Yuri não se importa com subclassificações e me introduziu à cachorrofilia com entusiasmo!
Já que inovei no uso da palavra “cachorrifilia”, que não é dicionarizada, vou concluir o Garrafas ao Mar falando de sufixos. Estou com 62 anos e a cada dia me assumo saudosista sim, mas não “saudosófila”. Explico: o sufixo “ismo” indica condição, estado. Já “filia” caracteriza a paixão, defesa apaixonada.
Por isso não sou “saudosófila”, não defendo o passado. Acho que “saudosófilos” são aqueles que suspiram fundo e reclamam pela volta dos “bons e velhos tempos”. Caso esses “velhos tempos” se refiram à ditadura militar, eu passo. Não tenho saudades dos anos 1970, era adolescente e vi professores serem presos, a eleição do Grêmio do meu colegial (Ensino Médio de hoje) ser proibida e a chapa de que fazia parte ser cassada pela diretoria da escola; tínhamos de ver um filme ou peça teatral que nos interessava às pressas, porque de hora pra outra aquilo podia ser proibido. Vi jornais e livros serem censurados. Não, NÃO MESMO! Aqueles não eram bons e velhos tempos.
Não, NÃO MESMO! Aqueles não eram bons e velhos tempos.
Ressalto porém o saudosismo salutar. Se tenho hoje um cocker spaniel que NÃO É cachorro da moda, também investi em outros passadismos: gastei um bom dinheiro pra trazer à vida um fusca 1974. Ele está pintado de verde, tem aquela buzininha fiiii-fiii que faz os pedestres sorrirem quando eu passo. Agora só me falta abrir todas as calças jeans com boca-de-sino de 30 cm para entrar de vez na máquina do tempo.
Por que não? Seriam bons sinais de saudosismo e não saudofilia.

Conheçam o Nashala 2,
meu Fusca 73.