Todos os povos devem ter seus “mitos turísticos”. Lugares que até existem mas que, no imaginário popular e pelos mais diversos motivos, ganham o status de extraordinários, terra de sonhos, autênticos Shangri-lá de maravilhas que deslumbram os viajantes.
Li há muito tempo uma notícia que comprova minha tese. Quando a URSS estava em seus estertores e o desabastecimento era brutal, havia imensas filas para comprar de tudo, de batatas a tijolos, de ovos a papel higiênico. No texto, li que estoicos moscovitas, enfrentando temperaturas polares, cunharam um irônico bordão pra enfrentar a adversidade: “Se eu estivesse no Rio de Janeiro, tudo seria bem melhor”. Sei lá o que povoava a imaginação desses cidadãos descontentes, mas certamente o Rio de Janeiro que eles vislumbravam não era o real. Devia ser aquele Rio das fotos de carnaval e mulheres peladas, terra de sol e samba, praias de água morna e muita, muita felicidade…
Meu “mito turístico” sempre foi uma paisagem com neve.
Paulistana, típica criatura tropical, via naquela imagem de cartão de Natal o símbolo de serenidade e plácida beleza. Viajei bastante, mas nunca fui em terras nevadas na época correta, pra conferir o que era real e fantasioso em meu desejo.
O frio? Este sim, encarei; mesmo no Brasil. Lembro especialmente da 10a Jornada Literária de Passo Fundo, em 2003, em que o palco foi armado ao relento e a noite nos flagrou com três graus e um vento minuano de cortar a pele. Ficava impossível acompanhar o enredo de uma peça com os dentes batendo e o rosto congelando… foi o mais brrrrrr por que passei, mas sem floquinhos brancos.
Neve mesmo só fui encontrar em 2018, quando eu e a família viajamos de carro, em janeiro, de Portugal para a Espanha e percorremos longos quilômetros com temperaturas negativas. De começo, tudo era lindo, árvores e campos cobertos por aquele branco uniforme… Bem, essa a imagem vista de dentro do carro.
Quando a gente resolveu parar e fotografar, foi a decepção. Bastaram cinco minutos de empolgação, pra enrolar bolas de neve e fazer selfies e veio a constatação: “neve é chuva gorda”. E fria. MUITO fria. Os flocos batiam na cara, machucavam, aquilo derretia depressa e encharcava tudo – rosto, roupas, mãos, botas – com uma água geladíssima, de freazer de geladeira. Um horror! Descobri decepcionada que absolutamente eu NÃO gostava de neve.
Se tinha meu particular mito turístico, o fato de viajar e ver a neve in loco me trouxe a comprovação de que a paisagem dos sonhos era desconfortável, irreal, fantasiosa. Provavelmente muitos dos moscovitas dos anos 1980, se turistaram pelo Brasil, também devem ter caído na real sobre os problemas cariocas. Agora, este mundo pós-pandemia e quarentena me abre outras reflexões. É o seguinte:
“Ver com os próprios olhos”, se traz decepção ao turista imaginário, também permite um senso de compreensão da realidade que pode lhe ser muito útil, na vida.
É triste perder os mitos, mas isso nos traz maturidade. Creio que essa sempre foi uma das virtudes do turismo, constatar como são os lugares de fato, com suas belezas e virtudes, mas também com mazelas e dificuldades cotidianas dos moradores.
Em 2021, mesmo que surja uma vacina eficaz contra o corona vírus e sua aplicação em larga escala, certamente o setor turístico continuará afetado. As pessoas ainda terão medo de longas viagens, os recursos financeiros serão mais escassos para se investir em lazer, sei lá! Não acho que esse mercado vai se recuperar tão facilmente.
Pena. Porque a maioria de nós vai viver de “mitos turísticos”. Acho que muita gente ainda vai sonhar com a neve, sem perceber, na própria pele, que neve não passa de uma chuva gorda!