Na adolescência, tinha admiração por um escritor alemão, hoje meio esquecido, Erich Maria Remarque (1898 -1970), autor de um best-seller sobre a Primeira Guerra, “Nada de Novo no Front”. Jornalista e anti-nazista, teve de fugir nos anos 1930 para os EUA. Lá, escreveu uma irônica reflexão sobre os exilados, SOMBRA NO PARAÍSO. O romance descrevia o desanimador cotidiano de intelectuais alemães, gente famosa em seu país, jornalistas, escritores, atores, músicos, um médico de renome… mas que vivenciavam imensa dificuldade em conseguir trabalho em Nova Iorque.

Afinal, como adaptar um estilo ferino e crítico, por exemplo, de um jornalista que escrevia em jornais alemães, para um inglês tatibitate de imigrante? Como um ator poderia disfarçar o pesado sotaque, ao interpretar na língua inglesa?

Com exceção do médico famoso, logo convidado para assumir cátedra em universidade e de um ator judeu (que, graças até ao sotaque e à imponente postura física, teve garantidos os papéis no cinema de Hollywood, como… um oficial nazista), os demais intelectuais exilados em Nova Iorque viviam à míngua. Agradeciam a inesperada ajuda do namorado de uma atriz, homem rude e de habilidade manual, que ganhava bem na construção civil e pagava muitas contas daquele grupo tão super-qualificado, mas cujas habilidades eram tão pouco úteis na metrópole americana.

Lembro desse caso para propor a incômoda reflexão:

Se acontecesse agora, já, uma crise tão absoluta que você se visse desempregado e reduzido a um mercado que valoriza poucas profissões, o que faria?

Você, jornalista, advogado, técnico em administração, físico, contador, publicitário, personal treiner etc etc etc… atuando em carreiras que, em tempos “de paz”, até seriam mais ou menos bem remuneradas mas que, diante do caos, reduzem-se também a um minguado (ou inexistente) rendimento. Persistiria nessas profissões? Ou mudaria de área?

Porque há profissões mais ou menos eternas, que passam aqui e ali por alguma inovação ou modismo, mas permanecem necessárias em todas as culturas humanas. Sempre haverá espaço para um padeiro, costureiro, boticário (farmacêutico ou entendido em artes curatórias), marceneiro, ferreiro (metalúrgico em suas variedades), médico. Mas o que fazer em profissões que se mostram quase inúteis em tempos de caos?

Mas o que fazer em profissões que se mostram quase inúteis em tempos de caos?

Em maio de 2020, quando no Brasil se abriram as inscrições para o ENEM 2020, presenciamos uma significativa diminuição de inscritos para os exames. Por quê? Será que muitos jovens vestibulandos, empiricamente, não estariam questionando suas opções profissionais, diante da pandemia da Covid-19, algo nessa mesma linha de raciocínio dos exilados alemães do romance SOMBRA NO PARAÍSO? Diante da quarentena, do empobrecimento generalizado pós-pandemia, do enxugamento cruel do mercado de trabalho, será que vale a pena persistir no sonho de ser advogado, físico, matemático, professor na área de Humanidades, publicitário, agente de turismo? Não é mais lógico ou produtivo tentar uma vaga na área de saúde ou tecnologia da computação, já que surpreendentemente o que tanto nos uniu nos tempos de coronavírus foram esses recursos de Internet e redes sociais que nos mantiveram antenados como “tribo humana”?

Acredito que o mundo pós-pandemia nos coloca muitas reflexões. Essa é mais uma: o que vou ser “quando crescer”? Até o surgimento de uma vacina nos trazer alguma normalidade, mesmo o futuro profissional das novas gerações está em cheque. Pense nisso, ao optar por uma carreira profissional…