Tive sorte em minha carreira. Hoje, creio que a maior delas foi ser uma adulta, ao estrear em livro. CRESCER É PERIGOSO saiu pela editora Moderna em 1986. Para a geração millenium, uma época inimaginável de ausência de computadores, Internet, celulares ou mídias sociais.
Essa dificuldade de comunicação, contudo, apresentou suas vantagens. Eu tinha 29 anos, e, se desde os 15 me nomeava escritora, era inédita em livro. Nessa época, era bem difícil um autor novo publicar, ainda mais em editora convencional. Então eu participava de concursos, colaborava em revistas e jornais de bairro ou de escola. Hoje, entendo esse aprendizado como salutar e construtivo. Deu-me maturidade, foco, permitiu-me fazer triagem do material bruto, ajudou a consolidar um estilo. Se tivesse publicado de qualquer jeito, aos 15 ou 16 anos, poderia ter gratificado uma vaidade circunstancial; mas, se tivesse um pingo de senso crítico, é bem provável que morresse de vergonha com aqueles textos de iniciante.
Não é maldade, é constatação: tirando aqui e ali uma exceção genial, o texto adolescente é fraco. A produção literária é igual vinho, carece de tempo de maturação para florescer em produto palatável. Mesmo se o candidato a escritor for um leitor atento e dedicado, é geralmente ingênuo e imaturo em estilo e abordagens.
Isso me lembra uma anedota, cito aqui sem nomear o autor: um escritor famoso era apoquentado por um candidato ao estrelato, para que avaliasse seus originais. O autor recusava e tal, mas certa vez tomou-se de coragem, leu o calhamaço e respondeu assim: “Fulano, seu texto tem momentos originais e criativos. Pena que o que é original NÃO É criativo e o que é criativo NÃO É original”…
É duro mas é verdade. Alguns vão me chamar de ranzinza, mas é irritante a quantidade de coisa ruim, de autor novo, que brota na Internet igual cogumelo, geralmente sob a auto avaliação de genialidade. O jovem escritor precisa entender que a juventude tem suas virtudes, as principais são a rebeldia e a coragem; mas há que ter cuidado pra não transformar isso em ignorância arrogante, do tipo “tenho orgulho em não conhecer”.
Nada há de vexatório em ignorar as coisas. Às vezes, a ignorância é bom incentivo na vida: “Eu desconheço Inglês ou natação e isso me incomoda, portanto, vou-me esforçar e aprender”. Essa é uma postura gratificante, o primeiro passo para reconhecer erros ou deficiências e melhorar. O duro é persistir no auto engano.
Quando se é jovem, também é fácil incorrer no imediatismo ou na simplificação de valores; acreditar que as coisas são mais fáceis do que na realidade. Conto outro caso, também de velhíssimos tempos. Um escritor famoso, que já vendera milhões de exemplares para público jovem, recebeu carta de uma fã de 14 anos (isso é do tempo em que recebíamos centenas de cartas pelo correio). A carta dizia mais ou menos o seguinte, que a garota adorou tanto o livro que tomou uma decisão. Pretendia ser dentista, mas como pra isso teria de se dedicar e estudar muito, resolveu então que ia ser… escritora.
Como se fosse imensamente mais fácil ser escritor do que ser dentista!
Vamos a outro exemplo, dessa vez com outra arte, a música. Imagine um Fulano que diz “amar a música do cantor X”. Vai a um karaokê, assume que não é profissional, mas pretende homenagear seu ídolo. Só que quer se divertir e se distrai com amigos, bebe demais, desafina, esquece as letras… Que nível de amor ele revela pela música? Muito pequeno, em minha opinião.
Quando, diante da Arte, a pessoa age com leviandade, em vez de prestar um tributo está cometendo uma ofensa. Nos exemplos que dei, tanto o cantor como o escritor eventuais podem ser amadores, mas não precisam ser medíocres. Podem dividir sua arte com o público mostrando compromisso: “eu gosto de escrever , não sou tão talentoso, mas treinei, li, estudei profissionais e fiz isso”. No mínimo, o resultado será honesto. Com dedicação, pode mesmo revelar uma peculiar sensibilidade.