Com essa terceira GARRAFAS AO MAR completo minha TRILOGIA DO CACHORRO. Dessa vez, meu assunto é nós mesmos, os donos dos cachorros.
Quais os motivos de alguém adotar um cão? Por solidão, vontade de dar ou receber amor, dar ou receber proteção? Pois bem, seja qual for a sua motivação, saiba que, certamente, você NÃO VAI receber aquilo que esperava, ao adotar um filhote.
Descobri que adotar um cachorrinho é como receber um filho que já nasce com 3 anos, com a personalidade formada, energia e curiosidade infinitas e sem a menor noção de perigo. Ele te marca em cima, “onde você vai?”, “o que você está comendo?”, “o que você pegou?”, invade espaços com a maior cara de pau e ODEIA a palavra NÃO.
Coitado daquele que pensa que, ao pegar um cão, terá uma sombra submissa e confortável no lar, quase uma almofada que respira. Ah! Um cãozinho se torna dono da sua casa (e de se seu coração, se tudo der certo). E, pra dar certo, é preciso aceitar que aquele seja um relacionamento de mão dupla, não um jogo de posse. Quem só quer mandar acaba odiando o cachorro ou formando uma criatura neurótica e infeliz.
No relacionamento homem e cão, temos de entender que somos os líderes da matilha e não feitores de escravos.
Há que dividir espaços, negociar comandos, respeitar individualidades… tudo com espírito de boa vontade e esperança em um futuro relacionamento prazeroso.
Aqui lembrei de um caso com humanos, que quero compartilhar. Um casal conhecido, ela, solteira; ele, divorciado, com um filho, certo dia recebeu a intimação do garoto pré-adolescente, “briguei com mamãe, quero morar com papai”. Okay, lá foi o moleque de 12 anos morar com eles. E aí?
Pra começar, o espaço que lhe deram foi o sofá da sala (e olha que havia um segundo quarto… o essencial escritório do casal). Ele não saía com o pai se houvesse outros amigos, porque eram “passeios de adultos”. Horários e tipos de refeições nunca eram negociados; se o garoto não gostava de comida vegana, por exemplo, “problema dele”.
Quanto tempo vocês acham que o menino ficou com o pai? Em menos de um mês ele teve de se acertar com a mãe e se foi, pra total alívio do pai e sua companheira. Pior é que o casal ainda se justificava, “a gente fez de tudo pra dar certo”. Ah, me engana que eu gosto! Nesse relacionamento, não houve respeito pelo menino, por seu espaço, desejos ou necessidades. Tinha tudo pra dar errado.
O menino foi tratado como cachorro enjeitado, pra quem um cobertor velho e uma gamela de água e comida tinham de bastar.
Ser dono de cachorro é bem mais que dar comida e teto. É colocar limites, “agora não vamos passear, a sua comida é aquela, tenho de sair e você não vai”. Também é agir com generosidade, intuir desejos, oferecer um petisco ou passeio até antes que o bicho peça, dosar o momento do carinho ou se retrair, caso o animal precise de silêncio ou solidão.
Vale a pena investir em tanto trabalho? Acho que vale. Se o dono do cachorro parar de se achar dono e for amigo, cúmplice e companheiro, vivenciará uma relação riquíssima, a engrandecer o ser humano. E o cachorro.