Desde a publicação de A ORIGEM DAS ESPÉCIES (1859), de Charles Darwin (1809 – 1882) o ser humano tem o discernimento de que aquilo que não evolui tende a desaparecer. É uma regra biológica que pode se estender a sociedades, comportamentos, modismos.
Anos atrás, fiz uma pesquisa a respeito da FIESP, a confederação das indústrias que ganhou força na década de 1930, reunindo empresários sólidos e preocupados com o desempenho da indústria nacional. O que me surpreendeu e quero aqui compartilhar com os leitores é que, daquelas empresas formadoras da entidade, uma parte já não existia, três ou quatro décadas depois.
A derrocada mais surpreendente foi a de uma fábrica de chapéus.

Até a década de 1950, o chapéu era um acessório essencial no vestuário masculino ou feminino.
Podia ser confeccionado com diferentes materiais, couro, feltro, pano, palha etc, ter mais ou menos enfeites, ser padronizado, luxuosíssimo ou consistir de um mero boné, mas era inconcebível, à mentalidade da época, que os seres humanos andasse na rua de cabeça descoberta. O chapéu era apêndice essencial do vestuário. Eterno.
Pois bem, em uma década o chapéu desapareceu. Em meados de 1960 este aparecia apenas em trajes típicos, cerimônias específicas ou por capricho de um ou outro excêntrico. Eliminou-se, extinguiu-se o chapéu… Por quê? Aqui, as teorias se multiplicam. Um amigo meu defende a tese de que, pelo menos no Brasil, o automóvel acabou com o chapéu. Conforme segmentos de classe média, cada vez maiores, aderiam ao transporte privado, foi-se entendendo que o chapéu era um trambolho incômodo, a esfolar-se no teto dos carros e inútil como defesa contra intempéries, já que bastava fechar a porta do automóvel e pronto! Já se deixava o mau tempo lá fora…
O namoro do brasileiro com o automóvel tem variantes, mas não se pode minimizar o papel da Volkswagen do Brasil. Em 1959 surge a primeira fábrica em São Bernardo do Campo, com a presença do presidente Juscelino Kubistchek e sua política desenvolvimentista, de construção de estradas por todo o país.
Nesses tempos de coronavírus, o transporte privado é uma forma de driblar o isolamento social.
Quem pode, tem saído da quarentena sobre quatro rodas, lotando ruas e avenidas das grandes cidades, até com engarrafamentos. Na cidade de São Paulo, para se evitar isso, instalou-se o rodízio por par ou impar: em dias pares, só automóveis com placas par e o mesmo para dias e placas ímpares.
Gritaria generalizada! A classe média se horroriza com a interferência no seu direito de ir e vir… enquanto isso, no transporte público, vê-se filas organizadas nas calçadas que se dissolvem feito bolha de sabão ao se subir no veículo. São ônibus, trens, comboios de metrô lotadíssimos, com pessoas que, até poucos dias antes, sequer usavam máscara.
Comecei citando Darwin e sua tese de “adaptação ou extinção”. A coronavírus não é a extinção do homo sapiens, mas sem dúvida uma forma cruel de escancarar as diferenças sociais, ainda mais no Brasil, onde os problemas de moradia, saúde, transporte urbano, educação já eram seculares e, diante de uma hecatombe externa, só se acentuaram.
No mundo pós-pandemia, todos estarão mais pobres. Financeiramente, com certeza. Esperemos que aconteça o contrário com a conscientização social.