Na quarentena, meu grande companheiro é o Yuri, simpático filhote de cocker spaniel mas que, como todo filhote, carece de limites pra não detonar a casa, a dona, o universo.
Contratei uma adestradora que me ensinou comandos básicos: sentar, dar a pata, ficar. Sentar e dar a pata o Yuri tira de letra, até porque, quando acerta, ganha petisco. Agora, FICAR… é complicado. É um bichinho elétrico, cheio de energia e o que começa com minha firme liderança da ordem “fica, Yuri” geralmente descamba em histéricos “pára, Yuri, solta, Yuri, não come isso, Yuri, aaaaaaaaaaaaahh Yuri”.
Concordo 100% com a adestradora, quando defende a eficácia do reforço positivo no aprendizado. Contudo, assumo que é difícil manter o sangue-de-barata-zen diante de um cachorro que devora a carcaça de um pombo, na calçada, ou arrasta sua blusa limpinha pelo quintal!
Esse processo de adestrar um cachorrinho novo me traz lembranças e ideias curiosas. Por exemplo, como um pet e um criança pequena carecem de coisas parecidas…
Há uns 20 anos, fazia palestras sobre meus livros, adotados em escolas de todo o Brasil. Em uma viagem, quem me buscou no hotel foi o motorista de entrega, um senhor simples e bem simpático. Nem sei como chegamos ao assunto sobre educação de filhos, mas ele, pai de um menino de cinco anos, disse que fazia questão de, todo dia, acordar o menino com uma mensagem especial: “Você é lindo, é amado, é inteligente. Papai te ama. Mamãe te ama. Deus te ama. Hoje vai ser um dia especial porque você vai fazer coisas incríveis. Seja feliz, meu filho”.
Não lembro das palavras exatas, mas o conteúdo era este e me pareceu bem inusitado. Disse isso, o motorista sorriu e se justificou: “A vida já é dura o bastante, dona, pra todo mundo. Meu filho um dia vai descobrir isso. Mas não precisa ser pela boca do pai”.
Ah, que surpresa comovente aquela postura de um homem pouco letrado, mas tão sensato! Pensei em quanto pai, nervoso e irritado, não age pelo ataque, até sem reparar o quanto prejudica o próprio filho. Ao rotular com palavras duras, “você é burro?” ou dar comandos negativos, “você nunca aprende?” age de modo pior doque o pior adestrador de cachorro.
Quando o pai diz “já falei mil vezes” na verdade não falou coisa com coisa. Não ensinou nada. É um deseducador, que tira oportunidades da criança.
Então, entre dicas da minha adestradora de cachorro e a memória de um motorista que afirmava diariamente seu amor pelo filho, fico com o seguinte: cachorros e crianças aprendem muito melhor – e pra vida toda – se os adultos-líderes-da-matilha demonstrarem firmeza e confiança. Em si mesmos, nos seus comandos. E principalmente nos seus filhotes.
Tenho certeza, todo aprendizado eficaz ancora-se neste trio de palavras mágicas: confiança, amor e serenidade.