Gosto de ler e ver biografias em que o imponderável – e até improvável – acabam em finais felizes. Aquilo que tinha tudo pra dar errado mas que, para a pessoa certa na hora exata, acaba trazendo um afortunado destino.

Um dos exemplos mais intensos e perenes é o que aconteceu com Star Trek (Jornada nas Estrelas).

O seriado da TV americana de meados dos anos 1960 que tinha tudo pra dar… ERRADO!

Começou que a década de ouro da FC foi nos anos 1950 e o público andava meio farto de monstros e aventuras espaciais. A produção televisiva era pobre, com efeitos especiais toscos; o elenco desconhecido. Houve mesmo um episódio-piloto tão pouco promissor que o ator que fazia o Capitão Kirk desistiu! Pobre desse cara, cujo nome faço questão de desconhecer, porque o que era improvável acabou extraordinário e William Shatner pôde protagonizar o líder da espaçonave com charme e garra que conquistaram gerações.

Gene Roddenberry, criador da série, era um visionário que planejava uma saga multicultural e humanista.

JORNADA NAS ESTRELAS focava menos nos vilões espaciais e mais na missão diplomática da nave, tolerando diferenças e propondo a paz entre os povos interplanetários.

Houve apenas três temporadas na TV, mas a semente estava lançada. O público, em especial adolescente, foi tocado pela mensagem e, nas sucessivas reprises da série, aumentou no boca-a-boca a notoriedade do programa. A série migrou para o cinema, com o mesmo elenco, rendeu novas reedições para a TV, com outros atores e até hoje é franquia milionária, entre os fãs de todo o planeta.

Para o elenco original de STAR TREK, tudo isso se revelou um pitoresco sonho realizado. Ninguém poderia imaginar o futuro, naqueles longínquos anos 1960, quando gravavam uma série de FC de baixo orçamento. Esses atores, DeForest Kelley, James Doohan, George Takei, Nichelle Nichols e, em especial, o queridíssimo dr. Spock Leonard Nimoy e o não menos admirado William Shatney, o melhor Capitão Kirk do universo, foram alçados à condição de astros! Nos anos 1980-1990, participaram do elenco de seis filmes para o cinema, e viveriam o resto de seus dias, se quisessem, apenas com o sucesso da franquia, com direitos de imagem em centenas de objetos de cult, de bonecos a cadernos e camisetas.

Se o destino de STAR TREK é memorável, quero agora citar um caso também peculiar. Recentemente vi na TV a biografia de Ulysses S. Grant (1822-1885), de quem nada sabia. Sua carreira no exército americano começou medíocre, tendo de se afastar por alcoolismo. Na vida civil só colecionou fracassos mas, com a ascensão de Abraham Lincoln (1809-1865) à presidência e o início da Guerra da Secessão, foi reincorporado ao exército e aproveitou sua chance.

Ulysses S. Grant era o homem certo no lugar certo. Liderou batalhas decisivas, com frieza e determinação, mas foi justo e generoso com os derrotados.

Com o fim da guerra e o assassinato de Lincoln, horrorizou-se com a atitude do vice-presidente Andrew Johnson (1808-1875) que assumiu o governo e fazia vistas grossas aos massacres comandados pela recém-fundada Ku Klux Klan contra a população negra em cidades do sul do EUA. Concorreu à presidência, ganhou, e, na medida do possível e de seu engajamento pessoal, impôs a justiça no relacionamento inter-racial.

Acredito que esses casos em que a sorte frustrou a determinação de destinos medíocres são bons exemplos de reflexão. Se as coisas estão ruins, podem melhorar.

Em novembro de 2020, com as recentes de eleições (presidencial nos EUA e municipal no Brasil) as pessoas deveriam conhecer essas biografias imponderáveis. Não acho que a História é feita de vilões e heróis, mas nunca é demais lembrar que a pessoa certa, no lugar idem, pode fazer a diferença.

Edit: Vitória de Joe Biden e Kamala Harris.