Nem sei quem usou pela primeira vez ou quando, mas a expressão é boa: “testemunha ocular da História”… Ainda mais agora, em 2020, quando todos somos “testemunhas oculares” de um momento histórico, a maior pandemia desde a gripe espanhola de 1918/19.

Vivenciamos pequenas e grandes tragédias e descobertas, desde o óbito de amigos e parentes com a Covid-19, à quarentena obrigatória que nos faz rever hábitos e comportamentos ou a identificação de mecanismos sociais de aproximação ou distanciamento. Temos de descobrir como trabalhar, namorar, revelar nossa amizade ou saudade à distância e isso não é fácil. Mudar hábitos de um “animal social” como o homem não é tarefa comum. Nossa saúde física corre perigo, mas a saúde mental também.

Além desse momento histórico, vivenciei várias outras mudanças ao longo das mais de seis década de vida e quero aqui compartilhar essas lembranças com vocês. São pequenos instantes de “testemunho ocular”…

Éramos ambientalistas e não sabíamos

A primeira vez que ouvi a palavra “ecologia” foi em 1968, no Colégio São Miguel Arcanjo da Vila Zelina. Estava com onze anos e um professor de Geografia nos explicou sobre o assunto. Curiosamente, a gente tinha práticas ambientalistas que foram minadas ao longo das décadas seguintes. Quando criança, eu ia à mercearia com a sacola, comprava café moído na hora (¼ ou ½ quilo, vendido em sacos de papel), pedia ao dono de venda os produtos “picados”, por exemplo, 1 kg de feijão ou arroz que ele retirava de uma saca e pesava em saquinhos de papel, embalagem que era naturalmente reciclada como papel de limpeza ou higiene.

Lembro quando surgiu o primeiro supermercado no bairro, numa zona mais rica, um “Peg-Pag”. Meu pai me levou até lá no seu fusca e me regalei em comprar coisas em embalagens plásticas e lustrosas, chocolates, bolachas, refrigerantes. Aos poucos, foi-se tornando “brega”, “cafona”, ultrapassado fazer as compras nos mercadinhos. O chique, o in, o correto, era ir a supermercados e pegar os produtos diretamente, todos já embalados e sedutores.

Pois bem: 50 anos depois, o mundo girou, girou e retornou ao ponto inicial. Hoje, a iniciativa de levar a própria sacola retornável, pesar os produtos em sacos descartáveis, comprar só o necessário e evitar o desperdício é que são atitudes louváveis, chiques, in, corretas.

Às vezes, tenho a impressão de que nossos hábitos de consumo de meados do século XX serão avaliados severamente pelas gerações futuras. Com um horror semelhante ao sentido por nós, ao refletir sobre a normalidade com que os romanos da Antiguidade jogavam seres humanos às feras, nas arenas, para alegria geral do povo…

O mundo está mais gordo

Sou uma senhora robusta. Ao longo de meus 62 anos, já fui gordinha, rechonchuda, gorda, obesa, pesada. Cheguei a ultrapassar os cem quilos, hoje nem chego aos 80 quilos, vivenciei todo o preconceito que cerca aqueles que têm excesso de peso.

Lembro da vergonha, em meados dos anos 80, quando fiz uma viagem a Buenos Aires e era a única gorda no avião, em lojas ou restaurantes. Pela época, era provável que me sentisse igualmente solitária no Rio de Janeiro ou Salvador. Éramos um mundo esguio; com suas raras exceções.

Hoje eu me estarreço com a quantidade de excesso de peso no mundo, em especial na gente jovem. Isso em toda a parte, nem destaco por exemplo os EUA, que tradicionalmente tem o povo mais obeso da face da Terra. Há gordos na Europa, na América Latina, entre pobres, classe média, gente mais abonada. É como se a Humanidade desse “uma banana” pra todos os conselhos das últimas décadas, que ressaltaram a moderação nos hábitos alimentares e a valorização da atividade física e se locupletasse com fast food, sem culpa ou remorso.

Pois bem, creio que essa questão vai-se acirrar no mundo pós-quarentena. Mesmo que no começo da pandemia a gente ainda tentasse manter dieta ou alguma ginástica, com o tempo, cada um à sua maneira começou a abrir exceções. É como se, “já que estamos confinados”, a gente pelo menos merece “comer aquele doce”, “fazer aquele bolo”, “encomendar aquela massa” e por aí vai. Fomos nos gratificando com alimentos mais calóricos e saborosos.

Ah, quando a quarentena passar… Creio que o mundo terá muito que avaliar, em padrões de beleza e consumo!