Em 2020 todos nos encontramos na condição de testemunhas oculares de um fato histórico, a maior pandemia desde a gripe espanhola de início do século XX. Além dessas vivências da quarentena, porém, quis compartilhar comportamentos que vi se modificarem bastante, nas minhas seis décadas de existência.
Somos hoje mais tolerantes com as diferenças
Homossexualidade era um tabu. Quando eu era criança (e mesmo adolescente) não ouvia falar sobre homossexualidade. Aqui e ali se murmurava se Fulano não era “um tanto afeminado” ou se Sicrana não “parecia um homem” porque usava camisa masculina; mas tudo por baixo do pano, cercado de muito escândalo e falta de informação.
Claro que deveria haver gays na mesma proporção que em nossos dias, mas ninguém assumia. Os que o faziam eram as raríssimas e escandalosas exceções, geralmente artistas rebeldes que afrontavam o status quo. Não eram pessoas “normais”, que tinham profissões comuns, como professores, advogados, doutores. Aqueles que fugiam à regra tinham de se refugiar em guetos, em boates de “entendidas”, na imprensa gay ou por aí. Era um mundo mais hipócrita. Hoje parece que há maior aceitação de comportamentos. Até que enfim! As pessoas entendem que aquilo que cada um faz na sua intimidade é apenas da conta dela: um homossexual pode ser um ótimo médico, professor, gerente etc.. Sua orientação sexual nada tem a ver com sua atividade profissional ou social.
Somos hoje mais intolerantes com os vícios
Até os anos 1980, a publicidade e a mídia em geral vendia o tabagismo ou o consumo do álcool como hábito normal e até desejado. Quando era criança, cansei de ver propaganda de cigarro na TV, atores bonitões acendendo dois cigarros na boca e passando um para a garota bonitona que, sensualmente, bafejava a fumaça pra cima, em gesto de sedução.
Também cansei de ver filmes e seriados que exibiam um gerente, por exemplo, receber cordialmente um cliente com um drinque, mesmo que às dez horas da manhã. A normalidade de happy hours diários que prosseguiam noite adentro. A masculinidade afirmada com a capacidade de ingerir grandes quantidades de álcool – sem degringolar em tremedeira ou vômito.
Hoje se dá “nome aos bois”: fumar é vício, nicotina traz problemas de saúde, álcool é droga que envenena o corpo e, em casos de abuso, sinal de uma doença reconhecida como tal, alcoolismo. Assinalar corretamente o uso dessas substâncias permite que as pessoas identifiquem problemas e, se necessário, peçam ajuda.
Viva a democracia!
Era adolescente nos anos 1970 e nem fazia ideia de quanta coisa a gente perdia. A censura nos tirava filmes, peças de teatro, livros. Lembro de encomendar, em 1975, no livreiro da USP, um exemplar do livro FELIZ ANO NOVO, de Rubem Fonseca, recém-censurado, como se estivesse comprando droga perigosíssima e, quando fui ler, deparei-me com um magnífico livro de contos… O que só acirrou a certeza da estupidez da censura, que tentava linearizar o gosto (literário, no caso) pelo padrão do censor.
Hoje o Brasil é uma democracia.
Por mais que a gente possa aqui e ali se irritar porque X ou Y está no poder, a eleição direta dessas pessoas é um fato. Qualquer tentativa de golpe é um equívoco. Há mecanismos legítimos para coibir abusos, cobrar descalabros, impedir crimes.
Do mesmo modo que hoje somos testemunhas oculares da covid-19 e ansiamos por um mundo pós-pandemia com valores humanistas mais generosos, também creio que os políticos oportunistas e ignorantes serão varridos pra lata de lixo da História.
Há que ter esperança. Não é mesmo?
Porque o mundo dá voltas, mas cristaliza as boas ideias e comportamentos. As pessoas sensatas vão superar os demagogos, ignorantes, brutais. Esse sim, é o mundo pós-pandemia que desejo encontrar.