No último dia de abril de 2021 recebi a primeira dose de Astrazeneca, vacina contra o COVID. Ufa! A sensação é de alívio, mas cautela: AINDA é necessário distanciamento, usar máscara, recorrer ao álcool mais do que ao perfume…

Mas é um avanço. Estudos indicam que, se eu desenvolver a doença, será uma forma leve de COVID; após a segunda dose, a imunização passa dos 90%. Há mais de um ano, a gente se acostumou a contabilizar a vida e as atividades em porcentagens e estimativas: usar transporte público aumenta em “X por cento” a chance de contágio; se ficar em casa, “diminui em Y”; se encontrar amigos, todos com máscara, “Z por cento“ de chance e por aí vai.

A relação homem-vacina tem mais de 200 anos, nossa atitude variando da beatitude agradecida à desconfiança, indiferença ou franca hostilidade. Teve de tudo nesse relacionamento.

Foi em meados do século XVIII que o boticário Edward Jenner (1749-1823) ouviu “a voz do povo”, que dizia que ordenhadoras de vacas não pegavam varíola. Por mais de vinte anos Jenner fez pesquisas até concluir que a inoculação de pus de varíola bovina em seres humanos imunizava-o contra a variante humana. Estava inventada a vacinação. Em 1798 Jenner encaminhou sua descoberta a Royal Society do Reino Unido, e, se encontrou algum ceticismo, a coisa não durou muito: em 1800 a Marinha britânica vacinava seus marujos; o exemplo foi seguido nacionalmente. Logo, vários países aderiam à vacinação. No Brasil, já em 1804 o Marquês de Barbacena ( 1772- 1842) trazia a anti-varíola para cá.

A partir de 1880, consolidou-se o ataque contra doenças virais, com Louis Pasteur (1822-1895). O médico e sanitarista francês, além de descobrir a vacina antirrábica, foi ferrenho defensor de medidas sanitárias. Seus seguidores brasileiros, como Oswaldo Cruz (1872-1917), Vital Brasil (1865-1950), Adolfo Lutz (1855-1940) e outros, modificaram o perfil pestilento do Rio de Janeiro e lideraram grandes campanhas de vacinação no país.

Hum, resumindo tudo, parece que a história da vacina é uma lista de vitórias e não foi bem assim. Infelizmente, o pensamento anticientífico e reações abusivas cercaram muito as campanhas de vacinação. Na década de 1920, no Brasil, a Revolta da Vacina ganhou dimensões de levante popular… cem anos depois, vemos políticos que atrasam a compra de insumos para criar vacinas em massa e, em nível pessoal, até recusam a imunização contra o COVID.

Nem sempre a crítica às vacinas partiu de forças obscurantistas; mesmo “boas intenções” podem se revelar equivocadas. Quando eu era jovem, nas décadas de 1970/80, ouvi muito universitário neo-hippie ou “natureba” se recusar a vacinar os filhos. A retórica era de defesa de uma “vida natural” e, se tanta gente já se resguardou do mal, gerando a “imunização de rebanho”, pra que continuar vacinando?

Em tese, posso até defender certos princípios “naturalistas”, como evitar uso de plástico em embalagens e alimentos com excesso de agrotóxicos, praticar atividade física etc., mas há séculos o homem não é assim tãããão natural, ele questiona e reage contra o destino biológico. Afinal, se deixássemos a Natureza seguir seu curso, teríamos uma expectativa de vida pré-Histórica, de menos de 30 anos. Aceitaríamos isso? A brutal mortalidade infantil de tempos pré-vacina? A morte por causa de um dente infeccionado ou corte no pé? Tudo sem reagir, só por que “é natural”?

Não é do feitio do ser humano conformar-se às regras naturais. Somos guerreiros em vários aspectos, inclusive na luta contra as doenças e mortes evitáveis. Então, agora que meu neto Calvin completa um mês de vida, fico feliz em saber que sua caderneta de vacinação lhe propõe umas vinte imunizações, contra doenças que antes matavam tão facilmente, como tuberculose, polio, rubéola, sarampo, varíola… e COVID!

Tenho certeza de que brevemente todos os seres do planeta conseguirão se vacinar contra essa doença. Mais uma vez, a vitória da ciência é a esperança para a Humanidade.