Por toda minha vida fui uma leitora curiosa. Descobri também que tenho excelente memória do que li. Hoje, aos 64 anos, fico espantada por recordar de textos lidos há décadas! Nem sempre foram obras grandiosas, marcos da Alta Literatura; às vezes, aquelas leituras eram significativas para a época ou me deram motivos bem pessoais para se fixarem na memória. Seja por qual motivo, resolvi compartilhar as lembranças nesta série, LEITURAS QUE MARCAM VIDAS. Pode ser que algum desses livros faça eco em memória alheia, mas, mesmo que fique só na sugestão, espero despertar sua curiosidade. BOA LEITURA!
Quando fui professora de Literatura, não me causou espanto perceber o quanto meus alunos adolescentes gostavam dos escritores românticos, em especial os do Byronismo. Isso porque lembrava de meu próprio entusiasmo quando os li pela primeira vez, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Castro Alves… ou os autores estrangeiros, como Edgar Allan Poe, que li em primorosas traduções. Aliás, fica a dica: seu poema mais famoso, O CORVO (THE RAVEN) teve uma versão em língua portuguesa de nada mais nada menos do que de Machado de Assis, a tal ponto sua obra cativou outros escritores pelo mundo afora.
Poe me fascinou por vários motivos. Primeiro, porque a dicotomia amor-e-morte é muito atraente na adolescência. O jovem se seduz pelo mórbido e sombrio, o que é contraditório mas explicável: há tanto que viver e que descobrir que intoxica; saber que outros jovens passaram por isso reconforta, feito uma terapia-do-espelho. Depois, há a biografia de muitos dos autores românticos, que efetivamente vivenciaram a máxima “sentir muito, morrer jovem”. Boa parte deles nem chegou aos 30 anos, mesmo assim produzindo febrilmente, fazendo jus à fama rebelde que também cercou essa geração de escritores de início do século XIX.
Edgar Allan Poe morreu com 40 anos. Foram quatro décadas de intensa produção literária e uma biografia repleta de reviravoltas tão inusitadas que fariam dele um excelente personagem das próprias histórias… Jogador compulsivo e alcoólatra, apaixonado pela prima adolescente, casou-se contra a vontade da família para enviuvar pouco tempo depois de casado. Imerso em dívidas, escreveu em jornais e revistas para ganhar dinheiro, fez de tudo na área editorial. Foi editor, crítico literário e de teatro, escreveu crônicas e textos humorísticos, mas foram seus contos sombrios, reunidos sob o título de HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS, que efetivamente me cativaram.
Não apenas como leitora. HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS me trouxeram um cânone narrativo, um parâmetro de como construir um conto perfeito. Seu estilo é afiado igual uma navalha; boa parte usando a primeira pessoa, incorpora a alma atormentada de personagens loucos, assassinos, visionários. Ao “conversar” conosco, Poe nos convence de que o que lemos é a vivência real e furiosa de alguém que nada tem a perder. Ou tudo: a começar da própria sanidade.
Ah, mas está enganado o leitor que definir Poe como um escritor “sobrenatural”. Por mais absurdo que seja o clima, a perversidade do protagonista, o desvario da linguagem, há uma lógica que a tudo permeia, nem que seja a lógica de um louco. Então, se Fulano diz que “tudo ouve, do Céu e do Inferno”, é porque é insano. Se está prestes e morrer sob tortura macabra, a chegada de um exército o livra do jugo da Inquisição. Se acredita que um gato é um ser diabólico, o fato de existir um gato aprisionado na parede traz a dimensão realista ao desfecho da história. Há realidade na loucura de Poe.
Nos tempos atuais, o jovem leitor de Edgar Allan Poe tem tudo a ganhar. Suas HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS trazem aquele necessário “incômodo na alma” que é a marca da grande literatura. Vivenciar o sombrio e o mórbido é passar por um impacto catártico que nos permite superar outros pavores normais da adolescência. E, se o leitor ainda tiver alguma ambição literária, encontrará em Poe um modelo excepcional de técnica narrativa, ainda mais no exercício do conto. Fica a dica!