Por toda minha vida fui uma leitora curiosa. Descobri também que tenho excelente memória do que li. Hoje, aos 64 anos, fico espantada por recordar de textos lidos há décadas! Nem sempre foram obras grandiosas, marcos da Alta Literatura; às vezes, aquelas leituras eram significativas para a época ou me deram motivos bem pessoais para se fixarem na memória. Seja por qual motivo, resolvi compartilhar as lembranças nesta série, LEITURAS QUE MARCAM VIDAS. Pode ser que algum desses livros faça eco em memória alheia, mas, mesmo que fique só na sugestão, espero despertar sua curiosidade. BOA LEITURA!
O CASO DO BOLINHO – TATIANA BELINKY

“Escrever para crianças é uma das tarefas mais sérias do mundo”, disse-me uma vez a fantástica escritora, dramaturga, tradutora e adaptadora Tatiana Belinky (1919-2013). Se ela foi fiel à essa seriedade, também (se) divertiu e a milhares de leitores, em mais de 250 livros.
A obra e a presença simpaticíssima de Tatiana Belinky marcaram gerações de brasileiros. A começar por mim: em meados dos anos 1960, lembro de assistir, em programas p&b da extinta TV Tupi, as adaptações que ela e seu marido Júlio Gouveia (1914-1988) fizeram de SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO, de Monteiro Lobato.
Muitos anos mais tarde, já adulta, como estudante de Letras na USP ou professora, era fascinada por suas adaptações de obras literárias de várias partes do mundo. Tatiana sempre respeitou seu leitor, afinada em adequar linguagem ao repertório da criança. Os temas abordados eram múltiplos, fossem realistas ou fantásticos. Foi uma dessas adaptações que, em meados dos anos 1990, proporcionou a divertida anedota que quero agora compartilhar.
Eu já era autora de livros juvenis e tive o privilégio de dividir espaço com Tatiana em uma feira de livro em escola de São Paulo, capital. Minha filha Carla (nasceu em 1990), em fase de alfabetização, me acompanhava na ocasião. Ela conhecia vários livros e O CASO DO BOLINHO era um de seus favoritos. Praticamente todas as noites eu o lia e, ao final, invariavelmente Carla chorava; no dia seguinte, novamente pedia o mesmo livro.
O enredo, adaptação de conto popular, é o seguinte: um casal idoso prepara o jantar e faz uma massa, mas o Bolinho ganha vida, foge pela janela e, em primeira pessoa, vangloria-se por escapar de ser comido pelos avós, por um lobo, por um homem etc., até que a Raposa esperta sugere que ele se aproxime e… nhac! Devora o Bolinho de um só bocado.
Apresentei Carla à “autora do livro de que você gosta tanto, O CASO DO BOLINHO”. Minha filha arregalou os olhos e perguntou, direta: “Dói, ser comido?”. Tatiana Belinky caiu na risada e respondeu: “não”. Isso bastou pra minha filha que, com cinco ou seis anos, foi brincar com os coleguinhas e incentivou um riquíssimo diálogo, entre mim e Tatiana, a respeito dos valores dos contos de fadas e narrativas “de medo” para crianças.
Nós concordávamos com a importância dos enredos fantásticos e mesmo assustadores para o imaginário infantil. É um processo de catarse no aprendizado emocional da criança. Ela pode se assustar com a figura do lobo ou chorar pelo destino do Bolinho, por exemplo, mas supera estas sensações no conforto do lar, sob proteção da mãe. Contos de Fadas são ferramentas valiosas na formação do caráter das crianças, que podem vivenciar os sentimentos negativos e superá-los, tornando-se adultos potencialmente mais confiantes.
A literatura para crianças e jovens sofre, em tempos recentes, uma sistemática campanha reacionária e obscurantista, de gente que, com a pseudo intenção de “proteger os jovens” acaba por revelar apenas seus preconceitos e ignorância do assunto. Os gêneros fantástico ou terror são apenas isso, mais uma abordagem no manancial historias que o Homem conta. Privar a criança desses enredos é não só ignorante como pernicioso à sua formação.