“Não há sujeito que não tenha na memória uma dúzia de arcabouços magníficos”, disse Monteiro Lobato. Os arcabouços são as nossas estruturas, os pilares que sustentam nosso corpo e alma.

A otimista declaração de Lobato me incentiva a refletir sobre os meus arcabouços. O que é realmente fundamental na minha vida? Quais os fatos que ressaltaria em minhas memórias? O que me sustenta, como seria esse esqueleto imaginário, que está no âmago da Marcia Kupstas?

Existe a Marcia-pessoa cuja trajetória de vida é compartilhada com os amigos, os colegas de tantos momentos, o povo da família, muitas vezes em momentos íntimos e peculiares. Mas há outra de mim, a Marcia escritora e esse arcabouço ganhou a magnificência lobatiana ao longo dos anos.

E são muitos anos. Em 2026 completo quarenta anos de carreira.

Quatro décadas é muito tempo. Vi nesses anos autores consagrados que “sumiram na poeira do tempo”, só pra arriscar uma imagem poética. Escrevi mais de 150 livros, muitos foram destratados, mas me surpreende que outros ganham sucessivas reimpressões, alcançando novos leitores. Por quê?

Sem falta modéstia, acredito que o talento define muita coisa, mas não tudo – entre aqueles autores esquecidos, sei que havia gente talentosa, mas que ficou para trás. Isso também me ajudou, o “fica adiante”, ter um olho criterioso na escolha de temas que caíram no gosto do público. Não dá para esquecer a generosidade desse público, topo às vezes com quarentões que se lembram com saudade do meu Gustavo, por exemplo, protagonista do livro de estreia, CRESCER É PERIGOSO.

Mas além das questões imponderáveis, como talento, reelaboração do texto, preocupação com estilo ou foco nos temas de meu público, não posso minimizar a importância de meus parceiros. Publiquei livros por editoras sérias, que valorizavam a obra e entregavam um produto bem feito, sedutor.

Esse produto-livro também vem de um outro mundo. Os primeiros textos foram escritos em máquina de escrever e, se eu errasse alguma coisa, tinha de usar corretivo; se quisesse uma cópia, papel carbono. Para falar com as editoras, só por telefone fixo (celulares eram um sonho absurdo). O contato com os fãs vinha na forma de cartinhas enviadas pelo correio. E caso meu leitor quisesse adquirir um livro, teria de ir até uma livraria (física, é claro) porque inexistia o e-commerce, era tudo presencial…

Muita gente deve achar que a década de 80, quando comecei a carreira, era um “mundo primitivo”. Sem cair na simplificação de rotular “aqueles bons e velhos tempos”, tenho uma nostalgia positiva de muita coisa que cercava esse início de carreira.  

As cartas dos fãs, por exemplo, chegavam no endereço das editoras, pelo correio, em envelopes selados. Quando as editoras reuniam um bom volume, elas me encaminhavam a correspondência. E eu respondia. Cartinha por cartinha (às vezes, havia lotes de oitenta, cem cartas ou mais). Um trabalhão! E era uma particular surpresa quando havia réplica, e aquele fã revelava um carinho imenso, dizendo que leu e releu a minha resposta, comovido por “segurar o mesmo papel que a escritora segurou”!

Na comunicação autor-editora usávamos muito o telefone. Se ainda hoje prefiro telefonar do que enviar mensagens por Internet, naquela época não havia outra opção senão o contato físico. Diversas vezes eu tinha uma ideia e ligava para o editor, um papo assim de longos minutos… vários projetos nasceram dessas conversas telefônicas, completados depois com um saudável encontro cara-a-cara, tantas vezes comemorado em um almoço (presencial, lógico!).

Passei 40 anos contando histórias e vivendo dessa carreira. Hoje, algumas pessoas me questionam, perguntam se não tenho medo do futuro. Sugerem que a figura do autor pode ser abolida, quando o mercado for tomado por obras escritas por Inteligência Artificial e todos os livros serão em formato digital.

Tenho algumas obras nesse formato, mas os exemplares de papel configuram a maior parte das minhas vendas. Será que, como escritora, deveria ficar com medo de desaparecer, como um anacronismo? Fazer parte de uma carreira extinta com a tecnologia, à semelhança do que ocorreu com os datilógrafos e os office-boys, por exemplo?

Ora, como leitora reconheço o conforto dos livros digitais, que facilitam a leitura. Adoro ver um calhamaço, por exemplo, caber na palma da minha mão. Posso dispensar o abajur e ler na cama, se quiser, até variando o tamanho da letra. Porém assumo que, mais do que a forma como são apresentados, o que me seduz são os enredos.

Afinal, o homem já contou histórias através da tradição oral, registrou-as em pedra ou papiro, publicou romances em folhetins. O objeto-livro agradou o público por séculos, e se hoje um novo formato ganha proeminência, makthoub, como dizem os árabes. Está escrito, é porque é e ponto final.

O que vale são as histórias. Tenho absoluta certeza de que não existe Inteligência Artificial que substitua o talento humano, a criatividade. Nossa capacidade na fabulação dos enredos e retrato de personagens permanecerá por muitos séculos adiante, seduzindo novos leitores.

Então, ergo uma taça imaginária e brindo às quatro décadas de carreira, agradecendo a um público generoso que ainda lê meus livros. Humildemente também faço o desejo de que essa carreira permaneça no imaginário das pessoas, quiçá por muitas e muitas décadas no futuro.

Tim-tim.