“Não existem heróis… na vida, os monstros vencem”, afirma o escritor norte-americano George G. Martin, que foi muito bem-sucedido, ao caracterizar esses heróis monstruosos nos livros da saga CRÔNICAS DE GELO E FOGO, adaptados para a premiadíssima série de TV, GUERRA DOS TRONOS.
Na vida real, é compreensível haver pessimismo. Afinal, por trás de figuras históricas, muitas vezes existem fatos e intenções bastante obscuras…
Não quero aqui estender demais o assunto, cada país elegeu seu candidato a herói da pátria pelos próprios motivos; porém, quando se pensa em “herói da pátria”, no Brasil, há um nome que se destaca, o de Tiradentes.

No dia 21 de abril, em 1792, Tiradentes (o alferes Joaquim José da Silva Xavier) foi enforcado, no Rio de Janeiro, na praça do Rocio, hoje praça Tiradentes.
Por que essa data é marco cívico tão importante em nosso calendário?
Tiradentes é uma figura obrigatória nos manuais escolares. Na escola, ficamos sabendo que ele foi um dos participantes da Inconfidência Mineira ocorrida em Vila Rica, nas Minas Gerais, em 1789. Todos também sabemos que o movimento deu errado, seus participantes, presos. Também aqui e ali, dependendo da linha pedagógica, podemos aprofundar uma leitura sobre os motivos da revolta, em especial o aumento dos impostos cobrados pela Coroa portuguesa, uma das causas que deflagrou o movimento. Também sabemos da influência das ideias do Iluminismo europeu, em especial entre os intelectuais e literatos que dividiam com Tiradentes o ideal republicano. Dezenas de pessoas foram presas no desmanche da rebelião. Onze foram condenados à morte.
Aí fica a questão: por que só Tiradentes foi morto?
Não sou historiadora nem socióloga, mas sou curiosa. Há no Youtube o canal BUENAS IDEIAS, do historiador e jornalista Eduardo Bueno, o Peninha, que aborda temas da história do Brasil com uma verve irônica que acho muito salutar. Além de situar Tiradentes no movimento da Inconfidência Mineira como uma figura de menor importância, Peninha analisa sua trajetória como figura-símbolo da liberdade no Brasil.
Tem tudo a ver com a República. Realmente, a morte de Tiradentes foi exemplar, Joaquim José da Silva Xavier foi enforcado no Rio de Janeiro, seu corpo esquartejado marcava o Caminho Real até as Minas e sua cabeça fincada numa praça no centro de Vila Rica. Sua casa foi destruída e salgada, para que nada nascesse ali. O governo português deu-lhe um castigo impactante, para dissuadir qualquer levante.
Porém o tempo passou e a figura de Tiradentes estava obliterada pelos novos tempos do Primeiro e Segundo Império. Foi só nas décadas de 1860/1870, oitenta anos após a sua morte, que Tiradentes retornou como herói. Dessa vez, o movimento republicano se instaurava como uma opção contra Dom Pedro II e seu nome tornava-se símbolo de um novo Brasil que se queria construir.
Como afirmou a escritora francesa Marguerite Yorcenar, “cada época escolhe o seu passado”. Para os militares que deflagraram a República, em 1889, o grande herói da pátria era Tiradentes. Um dos primeiros atos do novo regime foi instituir o dia 21 de abril como feriado nacional.
Mas herói que se preze precisa de uma imagem… e então? Qual seria o retrato de Tiradentes, já que havia pouquíssimas imagens dele?
O pintor positivista Décio Vilares, em 1890, resolveu o impasse e criou o retrato de um Tiradentes-mártir. A partir daí, dane-se a realidade e viva-se o mito. Não importava que o alferes, antes de ir ao cadafalso, estivesse barbeado e sem cabelos; não importava se ele usava roupas comuns. A imagem icônica era de um homem santificado pela pátria, um quase-Cristo que subia ao cadafalso, para nos salvar, a nós, brasileiros.

Essa identificação Cristo/Tiradentes foi adiante com Pedro Américo, pintor fartamente financiado pelo império e que desejava agradar aos novos donos do poder. Em 1893 ele produziu a tela Tiradentes Esquartejado (originalmente chamado Tiradentes Supliciado).

O quadro é muito popular em material didático. Muito aluninho deve ter tido pesadelos com o herói despedaçado. Ao lado de sua cabeça, há um crucifixo. Sobre um pano branco, seus pedaços criam quase um contorno do mapa do Brasil. Mais explícito, impossível: Tiradentes era o santo mártir que se sacrificou pela pátria. E foi essa a imagem que ficou.
Pois bem. Além da imagem construída, o que há de realidade no mito-Tiradentes? Ele realmente morreu pelo Brasil?
Talvez não por esse Brasil quimérico e grandiloquente, mas certamente Joaquim José dos Santos Xavier morreu por seus ideais republicanos. Ao contrário de muitos inconfidentes que, durante a prisão, pediram clemência e até abjuraram seus princípios, o alferes assumiu a total responsabilidade pela revolta, livrando assim os outros. Isso não é pouco. É preciso um bocado de coragem para aceitar um destino fatal.
Retomando a afirmação de G.G. Martin, o caso de Tiradentes é o de um herói que não foi monstruoso. Ele pode ter sido um bode expiatório do movimento, pode ter sido traído por companheiros ricos que se safaram do castigo. Sua imagem pode ter sido artificialmente construída pela República como uma espécie de Cristo cívico, mas o homem Tiradentes, seja lá por que motivos pessoais, ao assumir a culpa exclusiva, agiu como um autêntico herói.