No dia 23 de abril se comemora o Dia Mundial do Livro.

 Não sou assim uma aficionada por se comemorar efemérides, mas acredito que certas datas permitem uma maior visibilidade sobre o assunto comemorado.

 É o caso do livro.

 Porém, assumindo um “óbvio ululante” (adoro essa expressão cunhada pelo genial teatrólogo e jornalista Nelson Rodrigues), antes do livro veio a escrita.

“A escrita é considerada fundamental para o desenvolvimento e a complexidade das sociedades humanas”, diz o Google. “Ela superou as limitações da tradição oral”.

 Por séculos, a escrita carecia de uma relação direta entre quem escrevia e quem lia a mensagem. Tudo era registrado a mão, em tarefas lentas e meticulosas. Quem já viu a imagem de um livro copiado por beneditinos, por exemplo, sabe o quanto aquilo podia ser trabalhoso, com capitulares artísticas e iluminuras elaboradas…

 Só com o advento da imprensa, inventada por Gutenberg no século XV, o objeto-livro se popularizou.

 Com o livro, os homens puderam ter acesso a novas ideias. O conhecimento se democratizava, em ensaios e análises; os sonhos do homem se espalhavam em poemas, romances e contos… O universo da cultura passou pelas páginas dos livros. 

Não é pouca coisa. O livro é realmente muito importante na vida dos homens.

A alfabetização aumentou o número de leitores, as bibliotecas deixaram os livros acessíveis a qualquer interessado, as edições populares levaram exemplares para todos os lares. Em 2024, estimava-se que existiam no planeta 170 milhões de títulos únicos.

 Com a cultura pop, o objeto-livro transcendeu a própria função, foi muitas vezes um elemento-chave que abria a imaginação ou a sabedoria. São incontáveis os filmes ou séries de TV que apresentam livros mágicos, cujas páginas continham a “resposta para todos os Males”. Bibliotecários tornaram-se magos ou sábios e as bibliotecas, transbordando de volumes, tornaram-se um cenário recorrente, seja de filmes de terror a desenhos animados.

 Vemos os livros por toda parte, representando todo tipo de coisa. Esse objeto, tão comum no cotidiano, transformou-se, para o leitor abnegado, em quase um objeto de culto.

 Reconheço que a relação entre leitor e seu livro pode ser apaixonada. Tive amigos que chegaram a alugar uma casa só porque havia espaço para a biblioteca, ou que reformaram as paredes para transformá-las em estantes.

E hoje, na segunda década do século XXI, como vemos o livro, como convivemos com ele?

 Vou me dar como exemplo. Sou leitora voraz e já fui orgulhosa proprietária de centenas de volumes, abria espaço no guarda-roupas para acomodar livros, decorava a sala da casa com estantes abarrotadas, mas…

 Hoje não sou assim. Entendo que a era virtual trouxe um novo perfil para o livro e que isso deve ser considerado.

 Que me perdoem aqueles aficionados, que encaram o livro como um objeto sagrado, mas não tenho o fetiche por ele. Há alguns anos, comecei a ler e-books e fiz uma revisão objetiva do meu hábito de leitura.

 Sou do tipo que fica feliz em ter em mãos o livro de um autor favorito; mas, se for um calhamaço de 700 páginas, sei como é complicado ler aquilo na cama, por exemplo. Costumo ler e reler alguns clássicos, mas sei que esse material está disponibilizado na Internet como domínio público, o que dispensa a manutenção física do livro. Sei o quanto os livros ocupam espaço e são pesados e como uma estante mal organizada pode ser uma bomba-relógio para um acidente.

 Pois bem, depois de uma seleção cuidadosa, só mantive alguns livros de pesquisas, porque acho mais rápido localizar um trecho ou comentário em livro “de papel” do que na tela. Separei também os exemplares “de coração”, presente de algum amigo ou de um autor muito querido e os demais, eu doei.

 Não sofro por minha decisão, ate porque o livro não é essencial. O que é realmente essencial são as ideias que os livros contêm.

 O texto já foi pedra, foi rolo de papiro, foi capítulo em jornal, foi cortado em páginas regulares e metido entre duas capas, feito um livro. Agora temos os e-books. Tudo isso é apenas o suporte das ideias e elas é que importam.

 Então que se comemore o Dia do Livro, é uma efeméride, okay, mas que se tenha claro que, mais importante do que o livro, o fundamental são as nossas histórias e sonhos escritos, eles sim é que nos resgatam.