“O QUE VOCÊ VAI SER QUANDO CRESCER?” era uma frase-padrão, a pergunta básica que qualquer adulto soltava em conversa com criança.

Eu me questiono se ainda hoje os adultos perguntam esse tipo de coisa. Sei lá, as oportunidades, pessoais e profissionais, são hoje tão variadas, que essa indagação se desgastou: talvez, depois de crescer, a pessoa queira ser youtuber, participante de BBB, voluntário ambientalista na Amazônia, qualquer coisa que independa de um diploma ou de um registro profissional.

Porém na minha infância isso não acontecia. Supunha-se que, ao crescer, o jovem teria um foco, uma carreira em mira.

Vai daí que me lembrei também de outra coisa antiga, uma propaganda de TV, um desenho com um porquinho e o locutor perguntava, ao tal porquinho, “o que você vai ser quando crescer?” e a resposta era “salsicha, ué. Mas salsicha da marca X” e o comercial se encerrava com a inadequada transformação do porco em salsicha alegre, saltitante diante de nossos olhos, pronta para ser comida.

Hoje encaro esse anúncio como um tremendo mau gosto, mas quando era criança eu o adorava. Talvez porque, como o porquinho alegre com seu destino, tinha a própria determinação quanto ao meu futuro. Diante da pergunta, a resposta resoluta era que queria “ser escritora”, quando crescesse.

Hoje, quando completo quarenta anos de carreira e tenho mais de 150 livros publicados, constato prazerosamente que esse meu anseio se tornou realidade. “Ser escritora” era um sonho infantil que se concretizou.

Quando comecei a escrita profissional, em meados dos anos 1980, era a época do “boom do conto”. Impressionante a quantidade de revistas e jornais que publicavam contos e, para isso, careciam de contistas. Não me definiria assim naquela época, mas a escrita ligeira abria-me portas para o mercado. Era um excelente exercício profissional, escrever com um tema prévio, para um público específico, em número limitado de laudas.

Colaborei na revista Capricho, que se definia “a revista da Gatinha”, contos jovens, com personagens vivenciando situações típicas da adolescência. Escrevi também contos eróticos para revistas masculinas, relatos sensuais do ponto de vista mais variado, ora como um homem fascinado pela vizinha gostosa, ou uma garota lésbica ou um rapazinho atraído por mulher mais velha e etc etc etc, sempre era um novo desafio profissional.

Esse trabalho de encomenda foi um magnífico laboratório narrativo. Aliás, meu livro de estreia, CRESCER É PERIGOSO, nasceu como um conto, ENTRE VIRGEM E BALANÇA, relato de um adolescente que queria reunir colegas em uma festa de aniversário que agregasse nascidos entre esses dois signos do zodíaco.

Tenho total simpatia com a pessoa que consegue localizar, ainda jovem, uma vocação de vida inteira. Na minha época isso já era difícil, hoje também; as pessoas divagam entre possibilidades, listam carreiras como se fosse uma compra de supermercado, acham “bonito” ser isso ou aquilo, sem o pé na realidade de como se vai conseguir ser isso ou aquilo!

Também sei que, para os postulantes a escritor, nos dias de hoje, essa trajetória fica mais difícil. Há poucos veículos que publicam contos, além de que as editoras convencionais abrem pouquíssimas vagas para autores iniciantes. Resta a colaboração em blogs literários ou a auto-publicação, quando o autor banca o próprio livro e torce para que ele atinja algum público, em plataformas como a Amazon, por exemplo.

Seja como for, espero que jovens autores possam vivenciar sua ambição literária. Porque o desalentador é saber que, para muita gente, o destino almejado acaba moído pela máquina social; seu sonho profissional acaba em salsicha, como acontecia com aquele porquinho do comercial da TV, em décadas passadas.