O hábito de leitura não é apenas um recurso que nos auxilia em tarefas escolares. Todos nós já ouvimos algo como “quem lê tem melhor vocabulário”, “quem lê consegue compreender melhor os enunciados de todas as matérias, não só de Língua Portuguesa”, “quem lê tira melhores notas em todas as matérias” etc etc etc.. Tudo isso pode ser verdade, mas acredito que, além de tudo isso, aquela pessoa que tem a habilidade da leitura é uma pessoa mais atenta aos sentimentos e mais focada na autocompreensão. O leitor aprende a ler as pessoas, além dos textos.
Como conseguir a habilidade leitora se, por quaisquer motivos, você não a conseguiu? É possível criar um leitor?
O primeiro passo é reconhecer a dificuldade. Entender que a leitura é um processo e, para ser vitorioso, há que encarar o passo a passo.
Seja paciente. Comece escolhendo textos curtos, de preferência de autores conhecidos ou de temas universais. As fábulas são um bom começo. O enredo é muitas vezes bastante familiar, mesmo assim não “queime” etapas. Importante manter o ritmo de leitura, com poucas interrupções. Desenvolva uma leitura atenta. Se há vocábulos que desconhece, tente primeiramente procurar compreendê-los pelo contexto; caso as dúvidas permaneçam, recorra ao dicionário. Ao final, procure fixar a “moral da fábula”: por que se chegou a x conclusão? O que levou ao desfecho, qual o encadeamento dos fatos?
Crie uma tabela de tarefas, leia todos os dias. Tente fixar o hábito: vou ler durante x minutos ao final da tarde, ou depois do jantar, ou antes de sair de casa.
Procure separar temas de que goste, assuntos que ache interessantes. Em um primeiro estágio, mescle textos narrativos (sugiro as fábulas) com pequenos textos jornalísticos. O importante é, ao término da leitura, conseguir uma súmula do material lido, seja na forma de um resumo escrito ou uma retrospectiva mental.
A leitura é um hábito solitário, mas não precisa ser necessariamente autodidata. No GARRAFAS AO MAR anterior, comparei hábito de leitura com natação. Ter um instrutor é ter um facilitador no aprendizado. Idem para a leitura. Procure comentar, com amigos, professores ou bibliotecário, suas conquistas literárias. Diga o que gosta ou não em cada texto, peça sugestões de leituras. Mas atenção! Ninguém deve ler algo apenas porque é de um autor da moda ou que tenha relevância! Lembre-se que o hábito vem com um processo e um texto mais denso, em momento inicial, pode “afogar” o candidato a leitor…
Escolha com critério um livro mais encorpado. Um assunto que o atraia, um determinado gênero literário com que tenha mais afinidade ou algo mais genérico, um “livro de aventuras”, por exemplo. Gosto de recomendar A ILHA DO TESOURO, de Robert Louis Stevenson. Há várias traduções acessíveis no mercado brasileiro. O enredo e os personagens são cativantes.
Mas qualquer que seja o livro escolhido, marque uma meta a cumprir, x paginas todos os dias. Use um marcador para sinalizar onde parou. Ainda faça um resumo ao término das x páginas ou x capítulos, “o que o escritor quis me passar? Quem era o personagem Tal, ou o que aconteceu com ele?”
Ao término desse primeiro livro, seria bom conversar sobre ele com alguém, dar a sua opinião a respeito do enredo, do que você captou das intenções dos personagens.
No primeiro ano de leituras sequentes (lembre-se, é um processo… um ano é um período bem adequado para cristalizar um hábito), faça uma síntese do que conseguiu. Destaque, dessa lista, os livros que mais o atraíram. Talvez você descubra que tem um gênero favorito. Que bom! Pode agora ampliar seu repertório; selecione autores que acha relevantes na história mundial, arrisque-se a uma leitura mais sofisticada. Mas lembre-se também de que não é obrigado a gostar de tudo que lê, há preferências pessoais que não podem ser minimizadas.
Se você já está na etapa de identificar autores ou obras favoritas, parabéns. É provável que o hábito da leitura se firmou em sua vida. A partir daí, é seguir adiante… há um universo de livros incríveis, esperando por você.