Brincar de faz-de-conta é tudo de bom. Quando a gente é criança, é uma aventura! Poder soltar a imaginação e voar feito super-homem, ser linda como a princesa ou esquisito como o dragão, ter o melhor amigo do mundo ou visitar países exóticos. Depois que a pessoa cresce, muito dessa habilidade se atrofia. Porém há uma ideia meio generalizada de que o artista jamais perde essa capacidade imaginativa. Em especial o escritor, é visto como aquele cara que continua brincando de “faz-de-conta” em seus textos…

Não sei se gosto dessa ideia, que me parece simplista, quase depreciativa, como se a aptidão narrativa fosse fácil, como se o escritor fosse apenas um cara que tivesse um tanto a mais de imaginação. Opa, não é assim!

Faz-de-conta: brincadeira de criança ou ferramenta literária?

Prefiro assinar embaixo da afirmação do filósofo Friedrich Nietzsche: “o homem chega à maturidade quando encara a vida com a mesma seriedade que uma criança encara uma brincadeira”. Seguindo esse raciocínio, um escritor maduro seria aquele que encara o faz-de-conta como mais uma ferramenta em seu instrumental de habilidades narrativas.

A seriedade de brincar

Há outra ideia (bastante equivocada) que pressupõe que o personagem é o autor, como se um escritor sempre estivesse registrando em livro a sua biografia mais ou menos disfarçada. Quanta besteira! Se o autor é um profissional e sabe “brincar de faz-conta” com essa seriedade nietzscheniana, ele vai dar voz realista ao seu personagem, mesmo que este pense muito diferente dele. A voz do personagem é do personagem e pronto.

Vou me citar como exemplo. Sou uma leitora fluente que devora livros desde a infância, tenho competência vocabular e estilística em nível erudito. Porém, ao criar um livro-diário narrado em primeira pessoa por um adolescente ansioso, solitário, descendente de japoneses, desesperado por arrumar namorada ou amigos, bem, eu TINHA de reproduzir no corpo narrativo todas essas características. O livro não podia ter o estilo/a voz de Marcia Kupstas, mas ser o retrato convincente de Gustavo, o protagonista de CRESCER É PERIGOSO.

Criando Gustavo: quando a autora precisa desaparecer

Antes de escrever esse livro, já colaborava em revistas, o que foi um laboratório maravilhoso. Optava pelo foco narrativo em primeira pessoa, o que me fazia encarar o “faz-de-conta” de ser X ou Y e dar voz à personagem, com seu nível de referências ou macetes estilísticos. Numa narrativa em diário, como foi o caso de CRESCER É PERIGOSO, mais que nunca precisei conter a voz da autora para que o personagem pudesse se destacar.

Em 1986 esse livro foi um best-seller juvenil. Houve milhares de leitores adolescentes que se sentiram tocados pela narrativa ansiosa de Gustavo, que metralhava em estilo telegráfico todas as mazelas que acreditava rodearem a sua vida.

Claro que a pesquisa também é importante. Na época, lecionava numa tradicional escola paulistana, convivia com dezenas de alunos “orientais”, muitos deles descendentes de japoneses. Entrevistei uma colega nissei, que me ajudou a incorporar palavras japonesas à narrativa. Porém só a pesquisa não bastava para trazer verossimilhança à história. Foi necessário ter “olhos de ver”, enxergar além das aparências com minha particular capacidade de sentir a alma de quem, por ser diferente de muitos dos colegas, sentia-se discriminado e solitário. Só assim meu Gustavo poderia transcender o retrato de um possível aluno para se perpetuar como personagem.

Em 2026 CRESCER É PERIGOSO completa 40 anos. Nessas quatro décadas, escrevi mais de 150 livros, de diversos gêneros, coordenei coleções, investi em narrativas adultas, ministrei cursos e viajei um bocado. Porém sempre haverá uma autora que entende como foi significativo dar voz a um personagem que precisava, urgentemente, falar a sua verdade.

40 anos, gerações de leitores

Ainda recebo mensagens de meus leitores iniciais, porque Gustavo conseguiu ser voz de um tipo de adolescente dos anos 1980. Muita gente expressa como o livro marcou suas vidas; como a angústia existencial de Gustavo foi um espelho de suas próprias crises da adolescência.

Também recebo mensagens de atuais adolescentes, que, se não se vêem particularmente retratados em Gustavo, conseguem captar no livro os sentimentos pertinentes de toda adolescência, principalmente no que se refere à desconexão ou exclusão.

Então fica a dica: se você não conhece Gustavo, mas acredita que sentimentos da adolescência são atemporais, leia CRESCER É PERIGOSO e permita que meu “sanseizinho” ansioso e desbocado toque seu coração, como o fez com gerações de leitores de outras décadas.