Imagine que você topa com o seguinte parágrafo, em uma revista: “O presidente renasceu feito uma fênix, depois de depurar seu partido com a força de Hércules no seu 5º trabalho, ao limpar os estábulos do rei Áugias”.

Entendeu?

A fênix é uma ave mítica, que renasce das cinzas depois que morre (isso é acessível, até no Harry Potter existe uma fênix), mas… e o restante? Você saberia que o herói grego Hércules teve de aceitar 12 trabalhos dificílimos, como punição por ter matado a esposa e filhos num surto de loucura enviado pela deusa Hera, que o perseguia? E que o 5º trabalho era limpar o esterco acumulado por décadas no tal estábulo do rei Áugias?

Depois dessa explicação, dá pra entender que o “o presidente saiu renascido, vitorioso, depois de limpar toda a m* velha de seu partido”?

Agora, sinceridade: sem essa “tradução”, você teria entendido?

Bem, sem querer me exibir (mas já sendo exibida), eu compreenderia o texto perfeitamente, aos 12 anos. Com essa idade, tinha um vasto conhecimento sobre os deuses e mitos da Grécia antiga. Graças a uma pessoa: Monteiro Lobato.

Sou “lobatiana” por formação. Logo que aprendi a ler comecei a ter acesso aos livros do sítio do Picapau Amarelo e me apaixonei. Apaixonei tanto, que meus pais (que não eram ricos) combinaram meus próximos presentes de Natal e aniversários: livros de Lobato, até completar a coleção inteira, de 24 volumes.

Lia e relia esses volumes. Tantas vezes, acabava de ler um e começava outro, seguidamente. Sei que a parte didática da obra envelheceu, o que é compreensível, foi escrita em boa parte nas décadas de 1920 e 1930. Há até quem afronte o autor como preconceituoso; mas, sem querer botar mais lenha nessa fogueira, ressalto que Lobato era filho de seu tempo e, mesmo assim, foi um feminista avant-gard, criando dona Benta como uma mulher sábia, que lia de tudo e que administrava sozinha a sua propriedade, incentivando um salutar clima democrático no sítio, em que todos tinham voz e voto.

Dito isso, afirmo o quanto esses livros foram importantes na minha formação. Guardo até hoje essa coleção, meio desmontadinha, mas inteira, no meu coração.

E na minha memória. Lobato era um baita professor, transmitia conhecimentos sem “pesar a mão”, de maneira dialogada, saborosa. Foi assim que aprendi sobre mitologia grega.   

Em fins de 2025 pude testar um bocado dessa memória mitológica em uma viagem incrível por várias cidades da Grécia, num grupo ciceroneado pelo prof. Carlos Moreno, figura conhecidíssima em Porto Alegre e que tem o podcast NOITES GREGAS, em que divide com os fãs toda sua sapiência sobre os mitos gregos, narrados como se fossem uma saborosa fofoca sobre vizinhos próximos. Em um episódio, ele não só confidenciou seu apreço pelos livros de Lobato, como o reconheceu como um profundo conhecedor da mitologia grega, que soube “traduzir” de maneira fidedigna para um público jovem.  

Na viagem, contamos também com a guia local Konstantina, que trazia todas as informações históricas, enquanto o professor Moreno nos deliciava com a parte mitológica.

Konstantina e Prof. Moreno

Em roteiro de doze dias, nosso grupo visitou Atenas, Micenas, Esparta, Kalamata, Olímpia… lugares que ecoam pelo tempo. Também impossível esquecer Lobato, quando o próprio professor Moreno, indicando nossa próxima parada em Nemeia, dizia que “(Nemeia foi) visitada também por Emília, Pedrinho e Narizinho, (onde) Hércules mata o temível leão, cuja pele fará parte para sempre de sua indumentária”.

Várias são as lembranças que permearam essa viagem, mas destaco a presença marcante dos olivais.

Segundo Konstatina, existem mais de 170 milhões de oliveiras na Grécia, tem por todo lado! Acontece que azeitona (tentei arrancar uma da árvore, mas impossível de comer, é terrivelmente amarga) não é apenas um produto comercial, na forma de óleo de oliva, mas definitivamente faz parte do cotidiano dos gregos. Tem árvore de azeitona “a dar com pau” (só pra usar uma expressão lobatiana) em beira de estrada, à porta de lojas… até dentro de floreiras, enfeitando as casas!

Tenho uma memória fragmentada de nosso roteiro, porque seguíamos o trajeto em um ônibus, pernoitando apenas uma noite em cada cidade. Mas alguns lugares fixaram-se com mais força em minha memória.

Foi o caso do teatro de Epidauro, construído no século IV a.C. pelo arquiteto e escultor Policleto.

Se imaginava encontrar escombros, tive a grata surpresa de visitar um lugar totalmente preservado. Sua acústica é perfeita. Digo isso no tempo presente, porque, ao contrário de muitas ruínas, as boas condições do teatro comportam apresentações ainda nos nossos dias.

Quando da nossa visita, a guia Konstantina colocou essa perfeição à prova. Espalhou nosso grupo pelos degraus do anfiteatro e, munida de uma folha de papel, foi até o centro da arena. Então começou a cortar a folha e todos – todos, até quem se sentava nas últimas fileiras – conseguíamos ouvir o “rasg” do papel!

Agora, um som bem diferente eu ouvi no cabo Sunion, quando nosso grupo visitou a região cortada por ventos. Há ali as ruínas de um templo a Poseidon e o local é realmente ventoso…

Conta a lenda que foi do cabo Sunion que Egeu se jogou ao mar, desesperado pela morte do filho. O professor explicou melhor a lenda: depois de matar o Minotauro, o herói Teseu retornou ao lar. Havia combinado com o pai que, se fosse vitorioso, colocaria velas brancas em seu navio, mas, ansioso em dividir a vitória, esqueceu-se do combinado. Egeu, ao ver as velas escuras, preferiu o suicídio. As ruínas do templo a Poseidon marcam a lembrança da tragédia e a devoção ao deus do mar.

A VIAGEM PROSSEGUE!

Teremos mais uma garrafa na próxima semana!