Em meus 40 anos de carreira, vi e vivi muita coisa. Nessas décadas, fui “testemunha ocular da História” do mercado editorial. Quero dividir essa vivência com você, leitor. Mas… a memória pode ser traiçoeira! Como disse Fernando Pessoa, “nas fraldas do Himalaia, o Himalaia é só as fraldas do Himalaia. É na distância ou na memória ou na imaginação que o Himalaia é da sua altura, ou talvez um pouco mais alto”. Mais do que o registro de acontecimentos, trago lembranças e assumo a sua parcialidade.
Como você escolhe um livro?
Como você escolhe um livro? Pelo assunto, pelo autor, numa lista de MAIS VENDIDOS veiculada pela mídia ou acredita no eficaz boca-a-boca de algum amigo que leu e indicou a obra?
Bem, se você é um jovem estudante, o mais provável é que terá de ler no bimestre aquele livro indicado pela escola. Essa escolha, por sua vez, provavelmente foi intermediada pelo seu professor.
Aqui, minha pergunta “advogado do diabo”: será que o professor é um bom mediador da leitura? É um leitor confiável para indicar livros?
Olha, acho que é um chavão injusto culpar sempre o professor, dizendo que ele é desmotivado, ganha pouco, é mal preparado… nos anos 80, muitas editoras acreditavam nesse lugar-comum e procuravam facilitar ao máximo o trabalho do mestre.
Fichas de leitura e a figura do divulgador
Primeiro, com as fichas de leitura. Eram um encarte de papel inferior, com perguntas a respeito do livro e espaço para o aluno escrever a resposta. Muitas vezes, essa ficha era mais do que simples, era simplória, com questões do tipo “escreva abaixo o nome do protagonista”.
Segundo, havia nas editoras a figura do divulgador, um funcionário que levava os lançamentos às escolas (ou mesmo até a casa do professor) e sugeria aquilo que deveria ser adotado. Nas escolas mais carentes, essa relação divulgador-professor beirava o compadrismo, uma relação tão amigável que incentivava a postura “se eu gosto do Fulano da editora X, gosto dos livros da editora X”. Adoções imensas aconteciam em escolas, com vendas idem, confirmando esse axioma simplista.
De novo, ressalto que generalizo e simplifico. Escolas de bom nível, geralmente particulares, cujo corpo docente era bem remunerado e apoiado pela direção, sempre existiram, eram a “cereja do bolo” do mercado editorial e até por serem boas etc e tal dispensavam os divulgadores. As escolas mais carentes, de regiões distantes dos centros urbanos, estas precisavam não só da presença do divulgador, como das doações de exemplares. A doação de livros era quase um trabalho social.
A visita do escritor à escola: o ideal e o real
Um fato muito comum nos anos 80/90 era a visita do escritor à escola, promovida pelas editoras. Em tese, é atitude louvável: após a leitura do livro, o jovem leitor poderia conhecer cara-a-cara o autor da obra, questionando sobre personagens, enredo, carreira etc.. Motivados pelo encontro, os professores desenvolveriam trabalhos com os alunos, que criariam desenhos, peças de teatro, música etc a partir do livro.
Tudo bem, esse seria o painel ideal da visita do escritor à escola e muitas vezes acontecia desse modo gratificante para o escritor, mas…
Nesses 40 anos, vi e vivi tanta coisa que nem dá pra acreditar. Desde professores que me botaram numa sala de aula com oitenta adolescentes agitados, fecharam a porta e me deixaram lá, “ela que se vire, a gente tá de folga”. Ou eu ir à escola com o divulgador e NINGUÉM me conhecer, não haviam lido livro algum e nem sabiam o que fazer comigo… depois, o divulgador me contava que “queria abrir o mercado” e me usou como chave para incomodar a coordenação da escola, isso sem me avisar!
De norte a sul: a diversidade da educação brasileira
Devo ter visitado centenas de escolas durante o período, de norte a sul do país, conheço praticamente todos os Estados brasileiros. Essas viagens inclusive me abriram os olhos para a diversidade nacional e diferentes modos de se lidar com a educação. Moro em São Paulo, capital, lecionei em escolas particulares de classe média e partilhava o preconceito generalizado de que a “escola pública é ruim”.
Opa! Nem sempre, nem tanto. Claro está que o Brasil é um país de imensa desigualdade e isso se reflete na educação. Mas há projetos individuais e setorizados que merecem elogios. Em especial em cidades pequenas, visitei escolas municipais que eram “abraçadas” pela comunidade, desenvolviam bibliotecas dinâmicas e bem abastecidas, organizavam projetos pedagógicos recebidos com entusiasmo por pais de alunos. Em esfera estadual, lembro de uma visita a uma Feira do Livro em Fortaleza, que vivenciava um projeto inovador: o governo estadual dava a cada escola um cheque de determinado valor que deveria ser usado para aquisição de livros de biblioteca. Os alunos opinavam, dividiam com seus mestres quais volumes deveriam constar no acervo da escola. Era uma relação íntima e vibrante, e o vencedor certamente era a literatura.
Boas surpresas: quando a leitura floresce
Nesses encontros, tive tantas boas surpresas! Recebi um carinho imenso por parte dos leitores. Ouvi alunos me dizerem que “não gostavam de ler”, mas que, depois do meu livro, começaram a gostar. Acompanhei o trabalho didático de mestres engajados com sua tarefa, que desenvolveram, a partir de meus livros, sérias abordagens literárias e sociais.
Mestre com M maiúsculo
Mas a verdade é cruel e necessária: ninguém – repito, NINGUÉM – faz os outros se apaixonarem por aquilo de que não gostam.
Se o professor não gosta de ler, se apenas usa uma ficha de leitura em tarefa burocrática e monótona, se não instiga a curiosidade dos alunos, sugerindo títulos que podem ampliar o acervo de leituras dos alunos, ora, se não age como um difusor de cultura, dificilmente haverá um processo gratificante na adoção de livro em sala de aula.
É com essa reflexão que quero concluir essa crônica. Não era só nos anos 80 que a afirmação é válida, é para a eternidade: quem trabalha com prazer pelo que faz, incentiva o hábito da leitura, difunde sua paixão para os outros, não é apenas um professor de literatura. É um Mestre com M maiúsculo, um digno representante da carreira do magistério e merece sempre toda a consideração da sociedade a que atende.