Deve ser estranho alguém dizer que é tiete (ainda se usa tiete?) de um historiador. Eu assumo tranquilamente que sou a maior fã de Eduardo Bueno. Adoro seu texto e suas opiniões, mesmo quando discordo delas.

Já li dele o básico BRASIL: UMA HISTÓRIA. Agora, resolvi reler Capitães do Brasil, uma obra afiada igual navalha, cheia de informações cativantes. Revejo nossa história com o prazer e a curiosidade de quem lê um best-seller de aventura.
Eduardo Bueno conta a saga dos primeiros anos do Brasil, tempos em que a terra “descoberta” pelos portugueses era na verdade uma terra-de-ninguém. Os europeus eram náufragos ou degredados que sobreviveram aliando-se aos indígenas e, tantas vezes, revelando hábitos mais “selvagens” que civilizados. Fora esses, surgiam contrabandistas, na maioria franceses, que lotavam seus navios com toneladas de pau-brasil, frutas ou peles de animais.
O livro fala sobre os primeiros cinquenta anos de nosso país, antes mesmo que as capitanias hereditárias se revelassem um modelo (ineficaz, segundo ele) de ocupação lusitana da terra que Pedro Álvares tomou posse oficialmente em 21 de abril de 1500.
Os personagens são dignos de qualquer blockbuster hollywoodiano.
Gente como Diogo Álvares, o Caramuru, que talvez tenha naufragado em 1509 e convivia com os tupinambá, casando-se inclusive com Paraguaçu, filha do líder da aldeia. Ou Francisco de Chaves, o Bacharel de Cananeia, figura misteriosa, talvez espanhol, que liderava um grupo imenso de nativos. Por falar em liderança, não se pode esquecer de João Ramalho, que, ao se encontrar com Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil, estava com uns 70 anos e era tão rijo que caminava 50 km todos os dias; tinha dezenas de filhos mestiços e praticamente era o “dono” de Piratininga (a futura São Paulo). Como afirmou o mercenário alemão Ulrich Schmidel, em 1553, “Ramalho era capaz de arregimentar cinco mil índios em um só dia, enquanto o rei de Portugal só ajuntaria dois mil”. João Ramalho morreu em 1580, com quase cem anos.
Se fatos e personagens são por si só cativantes, é preciso enfatizar que o estilo de Eduardo Bueno é ainda outro fator positivo em suas obras.
Seu estilo é ágil, com alto poder de síntese.
O autor revela ainda prodigiosa memória para alinhavar os fatos e conduzir uma narrativa cativante. Mas que fique claro que, se Bueno tem um sedutor estilo jornalístico, jamais é leviano. Não fica em “achismos” tatibitate ou generalizações, busca exemplos precisos, revela uma capacidade imensa de pesquisar aquilo que lhe traz embasamento e divide prazerosamente conosco o que descobriu.
Um exemplo de Capitães do Brasil: “o Nordeste do Brasil era conhecido como “Costa do (pau) brasil” – denominação que, mais tarde, acabaria batizando todo o futuro país –, (…) com aquela designação, os portugueses estava repetindo um expediente que já haviam utilizado na África. (…) Surgiram, dessa forma, as designações Costa do Marfim, Costa da Malagueta, Costa dos Escravos ou Costa da Mina (…). Alguns desses nomes se mantém até hoje”.
Desse modo se manteve o nome que designava a primeira riqueza da terra, o pau-brasil, como topônimo de nosso país. Da descrição desses primeiros anos caóticos o livro CAPITÃES DO BRASIL segue aos primórdios de alguma tentativa de ordem, com as capitanias (sua divisão seguia o molde das sesmarias medievais). Estas eram terras doadas pelo rei a súditos de prestígio, que exploriariam suas terras a suas expensas pelo prazo de cinco anos.
Dos doze donatários das capitanias, pelo menos três tiveram um destino trágico: Aires da Cunha (do Maranhão) morreu em naufrágio; Francisco Pereira Coutinho (da Bahia) foi morto e devorado pelos Tupinambá; Vasco Fernando Coutinho (Espírito Santo), faliu de tal maneira que, ao retornar a Portugal, morreu sem ter “uma mortalha que o cobrisse” e sua mulher e filhos tiveram de viver da caridade.
Destinos trágicos, lutas com indígenas revoltosos, natureza inóspital, cobiça, fúria, mundo novo: em CAPITÃES DO BRASIL, Eduardo Bueno nos revela um Brasil selvagem e maravilhoso, que todos deveríamos conhecer.
Ah, pra concluir com uma outra dica, no Yotube o autor Eduardo Bueno tem o canal BUENAS IDEIAS, maravilhoso, em que revela em breves conversas toda sua verve cômica e furiosa para analisar e entender o Brasil. Vale MUITO a pena assistir!
Não conhecia o Eduardo Bueno e acredito que seja normal dizer que é fã de historiador hehehehe
Amei o texto e vou procurar sobre o autor, bem como seu canal. 💛 Muito bom!!