A grande festa do Oscar em 2026 traz dois filmes que têm, como pano de fundo, um tema no mínimo peculiar. São eles O AGENTE SECRETO, de Kleber Mendonça Filho e UMA BATALHA APÓS A OUTRA, de Paul Thomas Anderson.
Escrevo esse GARRAFAS AO MAR antes do evento e não sei se estes filmes foram premiados, mas este nem é o meu ponto: o que ressalto é a inusual popularidade de temas políticos e até incômodos ao gosto do grande público.
Minha memória viajou no tempo e me vi voltando a uma adolescência engajada, assistindo em cineclubes ou centro acadêmico de alguma faculdade da USP a filmes como TERRA EM TRANSE (1961), de Glauber Rocha; 1900 (1976), de Bernardo Bertolucci; LARANJA MECÂNICA (1971), de Stanley Kubrick; SACCO E VANZETTI (1971): de Giuliano Montaldo ou Z (1961), de Costa-Gavras.
É verdade que estes filmes dos anos 1960/70 iam beeeeem mais longe na denúncia ou explicação dos fatos do que os “oscariáveis” de 2026; de todo modo, me anima perceber hoje um interesse geral, de senso comum, por temas políticos, coisa que o cinema de cinquenta anos atrás não conseguia, restrito a um público intelectual ou de esquerda.
Esquerda! Difícil definir claramente o que hoje seria de esquerda, ainda mais na sociedade norte-americana, mas generalizo que esse gosto médio por temas mais polêmicos tira da zona de conforto uma parcela significativa do público dos EUA e do mundo.
Caso similar aconteceu em fins dos anos 1970 e na década de 1980, quando o Oscar funcionou como um radar da opinião pública, um bocado pessimista na época. A saída dos EUA do Vietnã, em 1975, por exemplo, desencadeou uma série de filmes que faziam um meaculpa diante do fracasso. O diretor Oliver Stone foi duas vezes vencedor abordando o tema, tanto em PLATOON (1986), que ganhou Oscars de Melhor Filme e de Diretor e NASCIDO EM 4 DE JULHO (1989), vencendo como Melhor Diretor. Em 1978 o filme AMARGO REGRESSO, de Hal Ashby, trouxe para o ator John Voigt o Oscar de Melhor Ator.
Mas o fenômeno ia além do Oscar. A guerra era o pano de fundo de RAMBO: PROGRAMADO PARA MATAR (1982), em que Sylvester Stallone, na pele do veterano fracassado Rambo, reagia furiosamente contra um xerife intolerante, expondo o público à questão “do que fazer” com soldados neurotizados e “programados para matar”.
Verdade que esse meaculpa americano não durou muito. Durante a “era Reagan” (1981-1989), voltada para o crescimento econômico e dureza contra a União Soviética, uma série de produtos culturais começou a surgir, minimizando a derrota americana no Vietnã. O próprio Rambo se multiplicou em mais quatro filmes, em que o protagonista deixava suas neuroses de lado e personificava o super-soldado, baluarte do conservadorismo dessa era, o protótipo do “vitorioso moral” da guerra do Vietnã e – claro! – da Guerra Fria, contra os soviéticos.
Voltemos porém ao Oscar 2026.
Ainda é cedo para saber se os filmes políticos serão uma nova tendência cinematográfica. Pode ser que “tudo acabe em pizza” e próximos filmes trarão a diluição dos assuntos mais sérios.
Por enquanto, acredito que é salutar, para esse público genérico, alimentar sua curiosidade sobre o cotidiano em uma sociedade totalitária, como em UMA BATALHA APÓS A OUTRA, ou a melancólica empatia por um intelectual perseguido durante o governo militar dos anos 1970, no Brasil, caso de O AGENTE SECRETO.
Portanto, dia 15 de março, não importa se o Oscar de alguma categoria irá laurear um destes filmes. Só o fato deles estarem no “red carpet” já é um ganho, para o cinema menos escapista e mais antenado a temas políticos.