Por toda minha vida fui uma leitora curiosa. Descobri também que tenho excelente memória do que li. Hoje, aos 63 anos, fico espantada por recordar de textos lidos há décadas! Nem sempre foram obras grandiosas, marcos da Alta Literatura; ás vezes, aquelas leituras eram significativas para a época ou me deram motivos bem pessoais para se fixarem na memória. Seja por qual motivo, resolvi compartilhar as lembranças nesta série, LEITURAS QUE MARCAM VIDAS. Pode ser que algum desses livros faça eco em memória alheia, mas, mesmo que fique só na sugestão, espero despertar sua curiosidade. BOA LEITURA!
1984, de George Orwell
Li o livro 1984 em 1972. Estava com 15 anos, era adolescente imaginativa e tinha medo de que o livro pressagiava um futuro bem horroroso, com um planeta dividido em superpotências que tiranizavam seus cidadãos!
Na verdade, o autor inglês George Orwell escolheu o ano de 1984 por motivo bem casual. Escreveu-o em 1948 e apenas inverteu os últimos números, datando o momento em que países totalitários usavam da tecnologia para vigiar os cidadãos com uma espécie de “Super-TV” denominada de Big Brother. O livro era uma fábula amarga criticando a União Soviética do pós-Segunda Guerra e a tendência persecutória que, segundo Orwell, se estenderia pelo planeta, mesmo que com desculpas governamentais aparentemente positivas, como a de “trazer segurança” à população.
Pois bem, como estávamos no real ano de 1984?
No meu caso, era adulta, formada em Letras pela USP (Universidade de São Paulo), casada, mãe de um filho e professora de Literatura e Técnicas de Redação em um grande colégio da capital paulistana. Entrei nesse colégio em 1982, ano em que a escola implementou um sistema de câmeras de segurança em portarias e corredores. Tudo tecnologia de ponta e inédita em lugares públicos. Pra quê! Houve uma reação indignada por parte de muitos alunos, em especial os mais velhos, do terceiro colegial (hoje Ensino Médio), mais politizados e que até conheciam o livro 1984 de George Orwell, porque se manifestaram em panelaço e passeata, com slogans irônicos tipo “Salve o Grande Irmão! Fora, Big Brother!” e coisas assim, associando a vigilância de câmeras de segurança à intenção da diretoria, de vigiar e coibir atos dos alunos, tipo aquele que manifestavam no momento…
Claro que o movimento anti-câmeras foi fogo de palha, de 1983 em diante a maioria dos alunos mal reparava na vigilância. Chegou 1984, passou, o mundo não vivenciou uma super-ditadura; no Brasil, ao contrário, o ano marcou o movimento das Diretas-Já, que encerrava o período de governos militares e culminaria em eleições presidenciais democráticas, como temos até hoje.
Na segunda década do século XXI, o que fica deste livro de George Orwell? Talvez o leitor atual ache o enredo de 1984 um tanto frustrante. Seus personagens ainda podem causar empatia pelo desejo de liberdade pessoal e vivência amorosa; o desfecho trágico ainda é comovente; afinal, é anseio normal dos seres humanos lutarem pela liberdade… ou não?
Porque hoje, em 2021, é caso de reflexão o fato de que um dos programas de entretenimento mais famosos na TV tenha o nome de BIG BROTHER. Também acho irônico ver a ansiedade com que pessoas comuns ambicionam participar da maratona televisiva, sendo vigiadas full time por câmeras de TV que devassam sua intimidade.
Se no livro 1984 os cidadãos eram vigiados pelo olho-ditatorial dos governantes, hoje somos nós os “voyeurs” totalitários. Somos nós os “espectadores-expectantes” louquinhos pra flagrar uma cena erótica ou chocante proporcionada por uma daquelas “personalidades” que participam do programa. Neste quem-é-quem entre a realidade do século XXI e a ficção literária do livro escrito por Orwell em 1948, muitos papeis se inverteram. Mas a possibilidade de refletir sobre totalitarismo continua atual. E necessária.