Por toda minha vida fui uma leitora curiosa. Descobri também que tenho excelente memória do que li. Hoje, aos 64 anos, fico espantada por recordar de textos lidos há décadas! Nem sempre foram obras grandiosas, marcos da Alta Literatura; às vezes, aquelas leituras eram significativas para a época ou me deram motivos bem pessoais para se fixarem na memória. Seja por qual motivo, resolvi compartilhar as lembranças nesta série, LEITURAS QUE MARCAM VIDAS. Pode ser que algum desses livros faça eco em memória alheia, mas, mesmo que fique só na sugestão, espero despertar sua curiosidade. BOA LEITURA!
Foi um privilégio que só reconheci mais tarde, já adulta: o de estudar em colégio progressista de freiras franciscanas nos anos 1960 e começo da década de 1970, o COLÉGIO SÃO MIGUEL ARCANJO, de Vila Zelina. Havia várias propostas inovadoras, como trabalho em equipe, auto-avaliação, assistência psicológica e pedagógica, aulas de Educação Sexual… Fato espantoso pela localização da escola, em distante bairro da zona leste paulistana e mais ainda por encorajar práticas e profissionais que, AINDA HOJE, segunda década do século XXI, sofrem discriminação por alguns setores da sociedade brasileira.
Mas vamos ao livro que quero comentar. Tinha aulas de Língua Portuguesa com o falecido professor Paulo, um mestre inesquecível, grande incentivador da leitura e da produção de textos. Mesmo em 1969, então com 11 anos, eu ansiava por ser uma escritora (pobre professor! Passava um tema semanal de redação e tinha de encarar meus longuíssimos textos de doze, quinze páginas). Também já era leitora voraz e um dos livros recomendados me impressionou bastante: MEU PÉ DE LARANJA LIMA, de José Mauro de Vasconcelos, best-seller da época. O livro era uma fantasia simpática sobre um garoto que conversava com uma árvore, mas o que me impressionou com essa idade era o despojamento da linguagem, inclusive com o menino criticando a família e realisticamente falando palavrões.
Gostei tanto do livro que depois “devorei” o autor. Era, junto com mamãe, sócia da biblioteca-ambulante do SESI e retirei vários livros de Vasconcelos de empréstimo; em alguns, encarei o mesmo lirismo mágico que havia em MEU PÉ DE LARANJA LIMA, entre personagens e ambiente (em especial a Amazônia ou o cerrado central); em outros, topei com temas adultos, de questionamento da fé religiosa, atração erótica e crítica social. Vasconcelos morreu em 1984 e é uma pena que sua obra ficou meio esquecida. Vai a dica, procurem ler BARRO BLANCO, ROSINHA, MINHA CANOA, DOIDÃO, O PALÁCIO JAPONÊS.
Agora, saindo da época e do autor, quero recordar outra coisa marcante que me une a MEU PÉ DE LARANJA LIMA. Em 1986 estreei profissionalmente com o livro juvenil CRESCER É PERIGOSO. Era um desabafo intenso, de um garoto sansei, em uma espécie de diário, em que o “japonesinho” se definia solitário, infeliz com o próprio corpo, ansioso por ter namorada, amigos, ir a festas, libertar-se de pressões familiares. Sua linguagem era despojada, ele escrevia palavrões (para depressa se arrepender, “se mamãe lê isso”!), fantasiava com colegas e se excitava com enredos de livros. Em 1986 eu estava com 29 anos e, se em minha pré-adolescência já topara com linguagem igualmente despojada, nada vi de condenável no desabafo de meu personagem.
Para minha surpresa, em 1986, o livro causou sua dose de escândalo. Algumas escolas não o indicaram; houve professores punidos por sugerir sua leitura e pais que se irritaram. O que validou seu sucesso foi o Prêmio-Revelação Mercedes-Benz de Literatura Juvenil, que CRESCER É PERIGOSO ganhou em 1988. A partir daí, seu prestígio só cresceu. A obra teve mais de 70 reimpressões e ainda hoje arrebata jovens fãs.
Por falar em hoje, preciso registrar meu estarrecimento. Não quero ser saudosista nem ranzinza, mas vejo como involução muito do que se sugere como leitura adequada ao jovem, nas escolas. O mercado editorial mudou bastante, dos anos 1980 para cá, mas há 40 anos preocupava-se em incentivar leitura de textos que “fizessem eco” à alma do jovem leitor. Havia temas ousados, posturas mais críticas, a busca por uma linguagem coloquial. Hoje, o que se vê nas escolas é geralmente inócuo. Tantas vezes se recorre a clássicos adaptados porque os educadores temem que algo mais “realista” possa incomodar os pais de alunos. É uma pena. O Brasil já forjou uma literatura juvenil corajosa, impactante; descobriram-se novos autores que se propunham a experiências temáticas e de linguagem como forma de dialogar com o adolescente. Com a atual política governamental de discriminar “temas tabu” e definir como “chula” qualquer ousadia de linguagem, a escola tende a, em pleno século XXI, permanecer no outro século – o dezenove!