Por toda minha vida fui uma leitora curiosa. Descobri também que tenho excelente memória do que li. Hoje, aos 64 anos, fico espantada por recordar de textos lidos há décadas! Nem sempre foram obras grandiosas, marcos da Alta Literatura; às vezes, aquelas leituras eram significativas para a época ou me deram motivos bem pessoais para se fixarem na memória. Seja por qual motivo, resolvi compartilhar as lembranças nesta série, LEITURAS QUE MARCAM VIDAS. Pode ser que algum desses livros faça eco em memória alheia, mas, mesmo que fique só na sugestão, espero despertar sua curiosidade. BOA LEITURA!
A cada romance, o norueguês Jo Nesbo se consolida como um grande escritor do gênero suspense. Seja nos inúmeros volumes com seu protagonista Harry Hole (BONECO DE NEVE, GARGANTA VERMELHA, O LEOPARDO e outros) ou em livros como o mais recente O REINO.

O patriarca da família Opgard define sua pequena fazenda montanhosa como “Reino”, que ele domina com mão de ferro. Sua esposa e os dois filhos, Roy e o caçula Carl, são súditos submissos e obedientes, mesmo sofrendo abusos e violência física e verbal. Pelo menos até o dia em que Roy toma uma atitude definitiva.
Roy é o narrador da história e, mesmo descrevendo cenas terríveis ou avaliando decisões brutais, tem um estilo irônico e de humor negro que acaba por seduzir o leitor. Mesmo à revelia, tornamo-nos cúmplices e até complacentes em julgar os seus motivos.
E não lhe faltam motivos para recorrer à violência, vivendo numa família pra lá de disfuncional. Sem dar mais spoilers, depois da morte dos pais o caçula Carl vai estudar nos EUA e fica distante por quinze anos. É um tempo de bonança em que Roy mora na fazenda mas pouco a administra, preferindo ser gerente de um posto de gasolina no vilarejo. Solteirão convicto e um tanto arredio, tem o prosaico sonho de um dia comprar o próprio posto.
Então inesperadamente Carl retorna. Vem com uma companheira, Shannon, uma ruiva baixinha, natural da ilha de Barbados, com o plano mirabolante de construir um hotel nas terras familiares, mas em projeto que financeiramente envolve toda a comunidade.
Se Roy é taciturno e de poucas palavras, Carl é bonito, amistoso, comunicativo, sedutor. Marca uma palestra para o povoado e convence a maioria dos moradores a apoiar seu plano hoteleiro. Não diz, porém, que o projeto arquitetônico é da esposa, nem que teve de sair dos EUA por problemas com sócios em um empreendimento fracassado.
Roy (e nós, leitores) aos poucos vamos desvendando essas múltiplas faces do simpaticíssimo Carl. Muito do que ele diz na verdade “não é bem assim”… como seu envolvimento amoroso com algumas garotas do povoado, velhas histórias que tendem a retornar junto com ele.
O relacionamento dos irmãos é denso e complicado. Aos poucos, entendemos os motivos de Roy para proteger Carl, mesmo quando ele age terrivelmente. Há novos crimes que ocultam antigos crimes e coisas que não foram ditas que assombram a comunicação atual.
Em uma espiral de segredos e mentiras, o desfecho amargo e surpreendente me lembrou uma das definições do inferno, de que seria um local de “eterno retorno”. O tal “reino” da família Opgard delimita um espaço do qual não se consegue escapar. Ações nefastas se sobrepõem a outras; resta o relacionamento fraterno e viciado, na sua dependência disfuncional e mórbida, como se o normal fosse seguir assim por toda eternidade.