Por toda minha vida fui uma leitora curiosa. Descobri também que tenho excelente memória do que li. Hoje, aos 64 anos, fico espantada por recordar de textos lidos há décadas! Nem sempre foram obras grandiosas, marcos da Alta Literatura; às vezes, aquelas leituras eram significativas para a época ou me deram motivos bem pessoais para se fixarem na memória. Seja por qual motivo, resolvi compartilhar as lembranças nesta série, LEITURAS QUE MARCAM VIDAS. Pode ser que algum desses livros faça eco em memória alheia, mas, mesmo que fique só na sugestão, espero despertar sua curiosidade. BOA LEITURA!

Richard Osman é um escritor inglês que nasceu em 1970, mas como seus livros parecem antigos, à moda de escritores britânicos… e isso NÃO É ruim! Impossível não lembrar de Doyle, Agatha Christie ou Chesterton ao ler O CLUBE DO CRIME DAS QUINTAS-FEIRAS e o mais recente O HOMEM QUE MORREU DUAS VEZES.

O quarteto de personagens, Elizabeth, ex-agente do MI5, a ex-enfermeira Joyce, o psiquiatra aposentado Ibrahim e o ex-sindicalista e mau humorado Don nos remetem a Sherlock Holmes, Padre Brown ou à xereta miss Marple, com sua boa dose de humor negro, praticidade e capacidade dedutiva na solução de mistérios. Como SEMPRE adorei esses personagens, só posso elogiar seus alter ego mais recentes!

Em princípio, os amigos se reúnem às quintas-feiras para discutir antigos crimes e tentar resolvê-los. Mas, quando crimes reais rondam a comunidade de terceira idade Cooper’s Chase, onde residem, toda sua perspicácia e determinação é posta à prova.

No primeiro livro, O CLUBE DO CRIME DAS QUINTAS-FEIRAS, a própria construção de Cooper’s Chase é o estopim do enredo, quando o rico empreiteiro da obra é encontrado morto. Discordando da investigação oficial (sob cuidados dos policiais Donna, jovem negra e ranzinza e Chris, gorducho, um tanto inseguro e solitário), o quarteto segue suas próprias pistas para solucionar o assassinato.

No segundo livro, O HOMEM QUE MORREU DUAS VEZES, temos um toque a la James Bond quando o ex-marido de Elizabeth, ainda agente do MI5, a procura pedindo proteção, porque está jurado de morte pela Máfia americana e por um gângster local. Há motivos para isso, já que ele confessa que roubou, do gângster, diamantes no valor de 20 milhões de libras!

Elizabeth imediatamente procura por seus amigos e, diante de dois assassinatos, elaboram uma teoria fantasiosa e fascinante. Há ex-defuntos que forjam a própria morte, a colaboração de um ex-assassino de aluguel polonês, uma traficante sexy e agentes corruptos do governo… Esse elenco de apoio engrandece ainda mais a performance de Joyce, Don, Ibrahim e Elizabeth. Cada um com suas peculiaridades e talentos, mas todos com um carisma cool fascinante!

Exemplos: “Joyce continua a jogar caça-palavras. Era preciso tirar o chapéu para ela às vezes. Mesmo com uma arma apontada para a melhor amiga”. Ou “depois de uma certa idade, você pode fazer basicamente o que quiser. Ninguém vai repreendê-lo, exceto os médicos e os filhos”. Atitudes de bom-senso e auto ironia admiráveis, ainda mais diante de temas incômodos como assassinato, espancamento ou rapto. Mas é esse “rir de si mesmo” e não aceitar a velhice como fim à possibilidade de atuar e participar que tornam os personagens e os livros tão sedutores.

Pode-se dizer que a tradição do romance policial inglês está bem representada em O CLUBE DO CRIME DAS QUINTAS-FEIRAS e O HOMEM QUE MORREU DUAS VEZES. E, diante do sucesso comercial e mundial dos livros, é provável que a saga desse grupo de septuagenários prossiga em vários outros. É o desejo de milhões de leitores!