Por toda minha vida fui uma leitora curiosa. Descobri também que tenho excelente memória do que li. Hoje, aos 64 anos, fico espantada por recordar de textos lidos há décadas! Nem sempre foram obras grandiosas, marcos da Alta Literatura; às vezes, aquelas leituras eram significativas para a época ou me deram motivos bem pessoais para se fixarem na memória. Seja por qual motivo, resolvi compartilhar as lembranças nesta série, LEITURAS QUE MARCAM VIDAS. Pode ser que algum desses livros faça eco em memória alheia, mas, mesmo que fique só na sugestão, espero despertar sua curiosidade. BOA LEITURA!

O que você prefere, o livro ou o filme? Creio que a maioria das pessoas, diante das duas linguagens, opta pela escrita. Afinal, o livro permite descrições mais longas, a intimidade das reflexões dos personagens, o desenredar elaborado dos fatos. Há casos, porém, que o inverso resulta em obra mais densa. Creio que isso aconteceu com SOB O SOL DA TOSCANA, livro de Frances Mayes e o filme homônimo dirigido por Audrey Wells (2003).

Talvez pelo magnífico elenco, pela sensível direção feminina, pela protagonista Diane Lane e mesmo porque, no roteiro, há uma trama mais complexa do que a do livro de Mayes (no livro, não há uma traição amorosa que leva a protagonista à Toscana). Tudo isso faz com que o filme acrescente descobertas, transformações e realizações pessoais que transcendem o relato simpático mas superficial de um “romance de viagem”.

Este mesmo espírito otimista e transformador está presente na obra mais recente de Meyes, QUATRO MULHERES SOB O SOL DA TOSCANA (2019). A narradora Kit e seu companheiro Calvin moram ha anos na fictícia vila de San Rocco, no sul da Itália e presenciam a chegada de três senhoras americanas a uma casa vizinha. A amizade é iminente e, aos poucos, percebermos a motivação de cada uma.

Camile e Susan são viúvas, têm boas lembranças dos ex-maridos, mas passam por momento de solidão e falta de perspectivas. Julia, de 59 anos, além de mais nova, é separada do marido e apresenta biografia mais conturbada, por conta de uma filha viciada em drogas e um ex adúltero. Nos EUA, elas se encontram casualmente em evento de divulgação de um retiro de terceira idade e chegam à conclusão de que são ainda jovens o bastante para se aventurar além do seu país e de uma rotina protegida, mas monótona. Resolvem alugar por um ano uma casa de 300 anos na Toscana, com a possibilidade de compra.

“O turista é um inocente”, cita uma das personagens e é exatamente essa visão ingênua e deslumbrada que cativa o leitor. Se há o choque cultural, há também o fascínio pela “alma italiana”, o prazer dos sabores, da vivência da arte, da descoberta de paisagens e pessoas. Tudo na Itália é novo e cativante! Mesmo quando ocorre um roubo (não darei detalhes para evitar spoiler) os ladrões são charmosos o suficiente para lhes deixar um presente. Com o passar dos meses, cada uma delas tem a possibilidade de vivenciar relacionamentos e desenvolver novos interesses artísticos. Elas se negam a aposentar os próprios sonhos, definindo a tese de que “podemos ser felizes em em qualquer idade”. A amizade entre elas também se fortalece; a narrativa é intimista e leve, favorecendo a empatia do leitor, que se torna mais um companheiro de viagem dessas personagens.

QUATRO MULHERES SOB O SOL DA TOSCANA e mesmo SOB O SOL DA TOSCANA são romances de viagem com o que há de positivo e negativo no gênero. São narrativas leves, otimistas, agradáveis; mas, se o leitor não está com o passaporte carimbado para iminente viagem à Itália, tem a sensação de que “eles se divertem mais do que eu”, se me entendem. Um problema de saúde, por exemplo, se derrete diante da degustação de um sorvete; o conflito amoroso é menos empolgante do que a fruição de um vinho de boa safra; mesmo os distúrbios familiares são varridos com menos empenho do que fazer a faxina no terreno da vila

A autora parece tão convicta em nos oferecer uma Toscana de mágica sedução que a Natureza acaba por se tornar protagonista maior do livro. O que é, afinal, a essência do romance de viagem: o seu bem (narrar sedutoramente a viagem) e o seu mal (se o leitor não é membro da excursão, fica uma ponta de inveja pelos viajantes).

Vale a pena ler QUATRO MULHERES SOB O SOL DA TOSCANA ou SOB O SOL DA TOSCANA? Se souber do que se trata e quiser leitura leve e otimista (em momentos de solidão de quarentena, foi ótima opção), vale. Mas, se desconhece o assunto, vá ver o filme SOB O SOL DA TOSCANA. Tem a mesna paisagem, um enredo melhor costurado e ainda performances maravilhosas, como a da atriz Diane Lane.