Em um encontro literário, ouvi certa vez uma escritora fazer o seguinte comentário: Por que os governos criavam campanhas de incentivo à leitura, mas não havia nada parecido para incentivar as pessoas a comer chocolate ou a caminhar na praia, por exemplo? Irônica, explicava que, para a maioria, comer chocolate ou caminhar em lugar bonito eram atividades prazerosas. Quanto ao hábito de ler, era significativo o número de gente que arrumava motivos para protelar a leitura. Por quê?
De modo geral, qualquer pessoa pode empiricamente opinar sobre um quadro ou uma música. Não é necessário ter um curso de história da Arte ou conhecer uma partitura para descrever um quadro como “bonito” ou uma melodia como “alegre” ou “divertida”. Isso é impossível quanto ao livro; a literatura é uma arte de pré-requisitos. Ninguém pode dizer se um livro é bom se não o ler. Quanto a isso, também é imprescindível ir além da alfabetização, é preciso manter o ritmo de leitura, compreender o encadeamento de ideias, captar as motivações de personagens. Por isso, tanta gente opta por dizer que “não gosta de ler”, quando na verdade deveria reconhecer que não consegue ler.
Aqui surge a indefectível questão: afinal, por que ser um leitor? Precisamos mesmo ter o hábito de leitura? O que os livros de ficção podem acrescentar à nossa vida?
Minha resposta é direta: porque, dependendo do momento e do enredo, um bom livro pode salvar a nossa alma.
As histórias não nos proporcionam apenas momentos de entretenimento. Claro que nos divertem e ajudam a passar o tempo, mas também são modelos de comportamentos, são ensinamentos sobre nossos sentimentos. E como podemos precisar disso!
Um bom leitor, um leitor habilitado, pode ter acesso a comportamentos humanos que servem como modelos. Ninguém precisou ser um órfão, sentir na própria pele a solidão e o isolamento em relação ao mundo, se leu os livros de Harry Potter, por exemplo. Os livros escritos por J. K. Rowling caracterizaram muito bem o bruxinho órfão que se descobre especialmente inserido no mundo mágico, com amigos também especiais.
Inveja! O melhor exemplo de como esse sentimento é cruel e devastador está em uma obra de mais de quinhentos anos, OTELO, de William Shakespeare. Otelo é um guerreiro renomado, casado com a bela Desdêmona; têm um casamento feliz, são apaixonados. Essa felicidade desperta a inveja de Iago, colega de armas de Otelo. Iago não ganha nada, pessoalmente, em desfazer aquela felicidade; não é apaixonado por Desdêmona, não disputa cargos com Otelo. É a gratuidade do mal, a terrível possibilidade de destruir a felicidade alheia só porque se pode fazer isso. Ao perceber a ingenuidade de Otelo em relação aos sentimentos, Iago resolve minar o relacionamento do casal com fofocas ou sugestões cruéis. Otelo acredita nas maledicências e, enlouquecido por ciúmes infundados, acaba por matar a esposa. A tragédia acaba vitoriosa; a inveja – parceira do ciúme – sobrepuja o amor.
Pois bem, se somos leitores atentos, se conhecemos alguma coisa de Shakespeare, ou lemos Harry Potter, ou fomos alimentados na infância com fábulas repletas de animais falantes vivenciando sentimentos muito humanos, podemos adquirir o necessário conhecimento sobre eles – seja inveja, ganância, arrogância, tristeza, orgulho, gratidão, alegria, amor, são tantos! – e podemos reagir de maneira adequada, valorizando o que nos fortalece e gratifica ou repudiando aquilo que pode nos fazer mal.
É por isso que um bom livro, no momento certo, pode salvar a nossa alma, ao nos permitir reconhecer em personagens os comportamentos que vemos em gente de carne e osso e, com isso, ajuda-nos a traçar comportamentos para superar problemas na vida real.
Então aqui fica a questão: se reconhecemos que a leitura é importante, como podemos nos transformar em leitores se, por qualquer que seja o motivo, ainda não o somos? Querer é poder?
Sim e não. Querer ser um leitor habilitado é o primeiro passo. Depois, é necessário encarar o processo para se chegar a isso.
Gosto de comparar o hábito da leitura com aprender a nadar. Imagine que você não sabe nadar. Um dia, descobre que a natação pode ser fundamental em sua vida e quer aprender. O que você faz? Mergulha numa piscina, fica horas e dias dentro da água, jura que só sai dali depois que aprender? O que acontece?
Provavelmente, depois de uns dias vai-se tirar um cadaverzinho da piscina e não um nadador habilitado.
Como se aprende a nadar?
Primeiro, delimita-se um tempo de aulas. Veste-se uma roupa adequada, procura-se por um instrutor que vai, passo a passo, graduando os exercícios e criando incentivos. Aí sim, ao cabo de alguns meses, você pode ter aprendido a nadar. Mais que isso: quem sabe até reconhece que gosta de nadar!
Por que com a leitura seria diferente?
Se um candidato a leitor escolher um romance de 500 páginas, ficar lendo desesperadamente tudo, sem conhecer vocabulário ou identificar a sequência de acontecimentos, desespera-se em chegar ao final e prossegue devorando páginas, pois bem, ao fechar o livro e concluir que “ler é chato mesmo, não entendi nada”, será que adquiriu o hábito da leitura? Ou é mais um que se “afogou” nas páginas do livro, odiando cada passo, provavelmente inimigo eterno dos livros?…
Do mesmo modo que na natação, o hábito da leitura é um processo. Esse candidato a leitor precisa ter a necessária humildade para ir, passo a passo, conquistando cada degrau dessa habilidade.
No próximo GARRAFAS AO MAR vou listar algumas sugestões de etapas que facilitem a conquista da habilidade leitora.