Em meus 40 anos de carreira, vi e vivi muita coisa. Nessas décadas, fui “testemunha ocular da História” do mercado editorial. Quero dividir essa vivência com você, leitor. Mas… a memória pode ser traiçoeira! Como disse Fernando Pessoa, “nas fraldas do Himalaia, o Himalaia é só as fraldas do Himalaia. É na distância ou na memória ou na imaginação que o Himalaia é da sua altura, ou talvez um pouco mais alto”. Mais do que o registro de acontecimentos, trago lembranças e assumo a sua parcialidade.
PARTE 1 – O LIVRO
Em meados dos anos 1980, quando comecei a escrever profissionalmente, o Brasil passava pela hiperinflação. Quem não viveu aquilo não tem ideia do que era encarar meses em que havia até 80% de aumento dos preços. A gente recebia o salário e saía pra fazer compras, porque na próxima semana (ou questão de dias) tudo estaria mais caro. A moeda se chamou Cruzeiro, Cruzado, Cruzado Novo… podia trocar de nome, mas continuava valendo nada. Eu me lembro de ter assinado contratos com as editoras em que havia cláusulas de pagamento de Direito Autoral com correção monetária, para minimizar a perda.
O boom da literatura juvenil e por que não digo “infanto-juvenil”
Curiosamente, esse período coincidiu com o boom da literatura juvenil brasileira. Juvenil, tá? Não gosto de usar a expressão infanto-juvenil porque, primeiro, adolescente não suporta ser taxado de criança pra ler os livros “dos menorzinhos” e segundo, acho que livro infantil é outra coisa, carece de profunda intimidade entre texto e ilustração, deve ter uma proposta formadora da leitura etc e tal. O livro juvenil se volta para um leitor já habilitado, com mais de 12 anos.
Pois bem, nos anos 80 as vendas de livros juvenis eram absurdamente altas, em comparação aos dias de hoje. As tiragens também eram altíssimas, de 15.000 ou 20.000 exemplares e eram muitos os títulos que superavam a marca de 100.000 exemplares anuais, em sucessivas reimpressões.
Por que o livro juvenil era tão barato?
Não sei se o preço do papel estava reduzido ou se a quantidade absurda de exemplares compensava as perdas com a inflação, mas o livro juvenil era barato e vendia. Um exemplo: meu livro de estreia, CRESCER É PERIGOSO, custava no lançamento o preço de uma revista VEJA. Se a revista aumentava, o livro idem. Mas mesmo assim era acessível, se comparado com hoje, em que uma revista impressa custa aí vinte reais e os livros, o dobro disso.
Quem comprava esses livros? A escola
Ora, o boom da literatura juvenil se atrelou à escola. Em outros países há um vínculo íntimo entre editoras e bibliotecas, por exemplo. Quando um livro é editado, um número “x” de exemplares é adquirido por bibliotecas que possibilitam uma leitura democrática e a custo zero, nestes países em que o hábito de leitura é uma conquista social. Aqui, não. Há o mercado “de livraria”, livros geralmente adultos, de pequena tiragem, voltados para a compra individual do leitor. E há o amplo, gigantesco mercado consumidor das escolas, sejam particulares ou públicas.
Havia desde os anos 70 uma lei que sugeria (ou obrigava, agora não tenho certeza) a leitura de livros de autores nacionais nas salas de aulas. Ora, os nossos clássicos (Machado, Alencar et alli) eram difíceis para o leitorzinho básico, os professores não sabiam como conquistar seu público… bem, as editoras chegavam nas escolas com um catálogo pronto, de obras de autores nacionais, livros baratos, acessíveis, com fichas de leitura já facilitando o trabalho do professor… era a fome com a vontade de comer.
A estratégia dos livros doados aos professores
Também quero destacar uma peculiar estratégia de marketing das editoras nos anos 80/90: a imensa quantidade de livros doados para os professores. Como as tiragens eram gigantescas, as editoras separavam um grande volume de exemplares para doação. Muitos detratores achavam que isso impingia ao professor muitos livros ruins, que eram adotados nas escolas porque chegavam “de graça”. Uhm, não sei se era bem assim. Livro fraco corria o risco do fiasco. Ouvi certa vez um comentário de um funcionário cuja editora encaminhara, de uma tiragem de trinta mil, dez mil exemplares para doar às escolas e a venda acabou sendo de menos de 5.000 exemplares. O livro “não colou” junto ao público jovem e deu imenso prejuízo à editora, que engoliu o encalhe. Livro bom, que tinha o que dizer, era bem-vindo (de graça, então, que ótimo!) nas salas de aula.
Muitos desses best-sellers juvenis dos anos 80 apostavam em uma fórmula cativante: os protagonistas tinham a idade próxima do leitor, a linguagem era coloquial, colorida, cheia de diálogos, os assuntos instigavam a curiosidade. Mas se agradavam ao leitor e ao intermediador (na figura do mestre ou coordenador de escola), geralmente eram desdenhados pela crítica. Aquele chavão nacional: se vendeu muito, se agradou, não pode ser bom.
Houve ótimos livros desse período, desde o que deu um pontapé inicial no gênero “policial juvenil”: O MISTÉRIO DO CINCO ESTRELAS, de Marcos Rey, rapidamente superou a marca de 2 milhões de exemplares e tornou a editora Ática uma potência dos anos 80. O escritor Pedro Bandeira apresentou seus personagens Os Karas, em best-sellers como A DROGA DA OBEDIÊNCIA e fez imenso sucesso.
Essa fórmula gerou uma sequente enxurrada de pastiches do gênero, com “n” autores produzindo “n” livros fraquinhos, que se tinham algum mérito era o de “serem fáceis”. Li vários, e às vezes era árduo diferenciar um exemplar do outro: uma turminha jovem, que falava muito, personagens mal descritos ou cuja descrição inexistia, um mistério bobinho, tipo “quem roubou o anel da Fulana”, mais um monte de diálogos pra mostrar a esperteza de algum Beltrano mais atento e pronto! Estava aí o desfecho da história, com a solução do caso e sua moral, tipo “o crime não compensa”. O que era pra ser leve e agradável resultava em leitura monotonamente previsível.
Estou propositadamente simplificando, muitas editoras estavam ávidas em publicar autores juvenis e nem toda essa gente era profissional, teve muito aventureiro se arriscando no ramo. Em prol do custo baixo, muita editora publicou livro em papel fino, mal diagramado, com capas coloridas e apelativas, ilustrações internas em p&b… livros que logo se desfaziam, um material ruim.
Nem tudo era fraco: as obras que ousaram
Diz um provérbio pra se tomar cuidado em “não se jogar fora o bebê junto com a água do banho”. Tive o privilégio de ser aluna da professora Nelly Novaes Coelho, que inaugurou nos anos 80 a cátedra de Literatura Infanto-Juvenil na USP e lhe perguntei sobre a qualidade do mercado editorial. Ela ressaltou o seguinte: podia ser verdade que havia uma maioria de textos fracos, mas, até pela quantidade do que se publicou, havia obras que saíam do ramerrão. Era possível experimentar e mesmo inovar. No meio de um mar de histórias fastidiosas, destacavam-se temas ousados e mesmo polêmicos.
Acrescento aqui um comentário que ouvi, na época: a funcionária de uma editora, que havia acabado de voltar de uma feira internacional, citou uma crítica inglesa espantada com a ousadia editorial brasileira. A crítica dizia que em seu país os livros juvenis evitavam certos assuntos, enquanto que no Brasil se publicava temas “espinhudos” como bulimia, gravidez na adolescência, alcoolismo, violência doméstica… As editoras nunca foram tão progressistas como nos anos 80, principalmente se pensarmos que esses livros acabavam adotados em escola.
Olhando pela luneta do tempo, dá pra se constatar que os anos 80 eram realmente inovadores. Na literatura, no cinema, nos costumes de modo geral tivemos uma época de mais liberdade, em que certos assuntos polêmicos puderam circular com bastante autonomia. Isso aconteceu também no mercado do livro juvenil no Brasil. Surgiram obras que ousavam na temática, no enfoque de personagens outsiders ou mesmo na linguagem, que registrava a coloquialidade e até palavrões, o que hoje parece inadmissível nos livros que entram nas escolas.
Seja porque nos anos 80 os professores fossem mais engajados, as editoras mais ousadas ou porque os jovens leitores eram ávidos em ler sobre temas realistas, tudo isso resultou numa literatura que ainda é relevante.
E hoje?
Lamento constatar que, na segunda década do terceiro milênio, vivemos um retrocesso. Deveríamos estar mais habituados à polêmica e ao debate, mas é vexatória a timidez com que os livros são adotados em sala de aula. Poderia até falar em censura, por parte de segmentos do governo e da sociedade que elaboram uma discutível intermediação na adoção de livros.
O papel do professor também mudou, dos anos 80 para cá, em especial no que concerne a nosso tema, os livros juvenis. Como o professor é o mediador da leitura do jovem? O que fez e fazia, em relação ao livro?
Esse é o próximo tema de GARRAFAS AO MAR.