Há alguns anos tive um aluno particular que estava se esforçando bastante para superar o desafio do vestibular e entrar em Medicina. Fazia todas as redações, lia a bibliografia recomendada etc. etc e conseguiu passar da primeira fase.

 Antes de começar outra etapa do concurso, ele se deu uma semana de férias. No retorno, perguntei o que ele fez e ele disse “que nada importante”. Só caminhado na praia, nadado e… lido dois romances best-seller, calhamaços de mais de quinhentas páginas cada!

 Sua resposta me intrigou na época e me surpreende ainda hoje. Para ele, os livros indicados em lista de vestibular eram importantes, eram praticamente sinônimos de leitura. Os textos muito conhecidos, livros de grande tiragem, eram passatempo. Eram “nada importante”…

 Por quê? Por que livros adorados por um grande público teriam de ganhar de forma automática o rótulo de serem fáceis e, concomitantemente, serem “ruins”?

 A história da literatura prova que essa tese é muitas vezes equivocada. A afirmação simplista de “se vende muito não pode ser bom” incorre em generalização tantas vezes injusta. Livros amados pelo público, sejam os folhetins de Alexandre Dumas, Dickens ou Mark Twain, com o passar dos anos ganharam o status de dignos representantes de suas pátrias. Revelaram-se ensaios profundos a respeito da sua época e retratos muito perspicazes da alma humana.

 Não gosto de simplificações. Nunca vou desmerecer um livro apenas porque ele agrada a muitos leitores. Aliás, é o contrário: os best-sellers me seduzem exatamente porque atraem tanta gente. Quero saber o que funciona naqueles livros. Okay, às vezes, eu me decepciono com narrativas frágeis, de solução simplista ou conceitos generalizados. Mas há também pérolas, de autores que facilitam a vida dos leitores sem pedantismo e por isso mesmo atraem multidões. Um bom exemplo é Paulo Coelho e seus milhões de exemplares vendidos (uma pesquisinha rápida no Google me diz que foram 350 milhões em mais de 170 países).

 Está claro também que nem todo best-seller é Paulo Coelho e nem toda obra de grande tiragem se torna um clássico. Há “n” livros que podem provar isso, livros que mexeram com a imaginação e agradaram ao público e que, passadas poucas décadas, foram esquecidos.

 Ouvi certa vez uma moça, que tinha aí meia dúzia de livros publicados em editora independente, referir-se a “seus clássicos”. Ora, por mais que ela tivesse força de vontade, aqueles títulos que venderam algumas centenas de exemplares jamais seriam clássicos. Por que não é você que define um clássico. Nem eu, sequer algum professor universitário.

O que cria um clássico é o tempo.

 E otras cositas más, como diriam nossos amigos portenhos. Uma obra transcende a seu tempo e à sua proposta se, além de agradar a uma grande quantidade de gente, ela apresenta modelos que fazem barulho, começam a ser discutidos e mesmo copiados. Tornam-se cânones daquele assunto. E aí o clássico pode se referir a um terninho preto da Chanel (que é um clássico do vestuário) ou ao filme ET, de Spielberg, um moderno clássico de ficção científica.

Voltando à literatura e ao leitor comum, como criar uma lista de leituras imprescindíveis?

 O aval acadêmico ajuda, há textos que além da permanência ganham seguidos estudos analíticos. No caso do Brasil, não é à-toa que José de Alencar e Machado de Assis lideram qualquer lista; eles foram escritores que souberam como ninguém retratar sua época e anseios de nosso povo.

 Mas, além dessa lista consagrada, nunca refuto a boa pesquisa pessoal. O gosto ou desgosto de cada um, que vai além da listagem daquilo que os teóricos glorificam.

 No meu caso, Agatha Christie despontaria como grande dama do romance policial e ah! Como eu gosto de romances policiais. Por que não citá-la como clássico nesse gênero? A sua lista poderia sinalizar um romance pouco conhecido, mas que, em certo momento da sua trajetória, foi marcante em sua vida. De certa forma, eternizou-se no seu gosto pessoal.

 Então não menosprezo esse gosto. Não julgo uma obra pela quantidade de gente que seduziu, acredito que devemos relativizar a leitura íntima, particular (que pode mesmo se ampliar para multidões) e darmos o distanciamento do tempo para avaliar a importância de uma obra.

 Muita leitura raivosa seria poupada se a gente soubesse escalonar os livros clássicos e consagrados daqueles de entretenimento. Há espaço para ambos, na estante de quem se pretende um amante da literatura.