Em meus 40 anos de carreira, vi e vivi muita coisa. Nessas décadas, fui “testemunha ocular da História” do mercado editorial. Quero dividir essa vivência com você, leitor. Mas… a memória pode ser traiçoeira! Como disse Fernando Pessoa, “nas fraldas do Himalaia, o Himalaia é só as fraldas do Himalaia. É na distância ou na memória ou na imaginação que o Himalaia é da sua altura, ou talvez um pouco mais alto”. Mais do que o registro de acontecimentos, trago lembranças e assumo a sua parcialidade.

PARTE 3: O ESCRITOR

Nos anos 80, juro que tinha a impressão de que todo mundo queria ser escritor de livros juvenis. Seja porque as tiragens eram imensas, as editoras muito persistentes, ou havia a ideia aparente de que “era fácil” escrever para jovens, mas o que vi de gente de outras áreas adentrando esse mercado, é impressionante!

Lembro até de uma crítica de jornal, senhora bastante criteriosa para avaliar as obras alheias, que um belo dia surgiu com um livreco juvenil dos mais chinfrins… parece que toda a sua perspicácia cedeu a um trabalho apressado, bem ao estilo oportunista que aqui assinalo.

Da literatura juvenil ao sheik bilionário

Esse é fenômeno recorrente e parece que a “bola da vez” é a de livros sensuais. Na internet hoje pululam livros de capas horrivelmente cafonas, com virgenzinhas tímidas agarrando-se a algum saradão de cara de mau e títulos como “O HOMEM ALFA ME PEGOU”, “COMPRADA PELO BILIONÁRIO”, “TIVE UM FILHO COM O SHEIK”, “DEI UM FILHO AO CEO BILIONÁRIO QUE DEPOIS VIROU UM MARIDO PANACA E BONZINHO” etc e tal. Por que tanta gente se mete a ser escritor?

Afinal, por que ser escritor?

Não é de hoje que me pergunto o que existe no status de escritor que é tão atraente. Pela riqueza não é, ao menos no Brasil (já respondo: não, eu NÃO FIQUEI rica, depois de 40 anos levo só uma vida confortável). É pelo prestígio? Bem, se alguém numa festa me diz que é “artista plástico”, a primeira coisa que penso é uma tiazinha colorindo pano de prato e vendendo em feira artesanal. Já a maioria das pessoas, ao ouvir “escritor”, deve imaginar que o interlocutor é alguém sério, intelectual… só se for isso.

De onde vêm as ideias?

Piadas à parte, a maioria das pessoas tem uma ideia preconcebida do escritor que pouquíssimo corresponde à verdade. Muitos leitores são curiosos e se há uma pergunta constante em palestras é a respeito da inspiração, “de onde vêm as suas ideias?”

Minha resposta é “não sei”. Sei que sou naturalmente curiosa, era o tipo de criança que lia enciclopédia na infância, que buzinava na orelha de professores uma imensidão de “por quês” e essa curiosidade se estende ao mundo todo, ao cotidiano das pessoas e acontecimentos do dia.

Então pode acontecer de, inesperadamente, alguém ou algo me cutucar a tal inspiração. A ideia me circula, ronda, atocaia feito uma fera maliciosa, ora tenho um vislumbre do corpo da personagem, ora um diálogo… fico me perguntando “e se” o tempo todo: “e se Fulano morar num lugar X ou Y, como iria falar? Ou se vestir, ou comer, ou amar etc?”… e mais: “e se o Fulano amar Fulana e ela gostar de Beltrano, como vão conversar em trio num dia comum?”.

A coisa segue até o momento em que preciso colocar aquilo no papel. É uma necessidade visceral. Se eu fosse uma pintora, talvez quisesse desenhar a tal fera. Se fosse música, faria uma canção. Como sou escritora, faço um livro.

Mas, para tristeza daquele povo que só enxerga o discutível glamour da sessão de autógrafos, há por trás da obra impressa um número imenso de horas solitárias, dedicadas à escrita e ao desenrolar do enredo.

A receita de um livro, segundo Marcia Kupstas

Então vou oferecer, segundo Marcia Kupstas, a receita de se escrever um livro.

Depois de ser cutucada por dias ou semanas ou meses pela tal fera da inspiração, coloco a ideia no papel. É o tempo da escrita, que para mim é frenético. Comecei usando máquina de escrever e papel carbono (o povo de hoje nem deve imaginar o que era isso), chegava a teclar aí umas 30, 40 laudas numa sentada. É um frenesi que beira o mediúnico, em que às vezes me pego falando em voz alta, testando diálogos ou descrições.

Feito o primeiro copião, há o segundo tempo, muito mais lento e cerebral. Leio e releio o texto, dezenas de vezes e reescrevo, às vezes também dezenas de vezes, um trecho que não me convenceu. Depois essa primeira versão passa por um leitor criterioso, às vezes uma pessoa amiga ou um funcionário da editora, com quem dialogo sobre mudanças pertinentes.

Ufa! Nada disso é imediato nem fácil. Há uma frase recorrente que afirma que “escrever é 10% inspiração e 90% transpiração”. Assino embaixo.

Claro está que esse roteiro é pessoal e cada autor tem processos particulares. Há gente que só escreve depois de construir a trama inteira na sua cabeça e não muda uma vírgula do que planejou. Há também aqueles que desenvolvem pesquisas minuciosas.

E a pesquisa? Da Amazônia para o papel

Aliás, faltou assinalar PESQUISA, no meu processo de criação. Houve livros mais intimistas que a dispensaram e outros, que precisei estudar muita coisa, como foi o caso de FRONTEIRAS e MARCO ZERO, que se passam na Amazônia e mencionam construções arqueológicas. Eu viajei para o Acre e Amapá, entrevistei arqueólogos, fui in loco conhecer as estruturas e só desenvolvi o enredo depois de assimilar todas as informações. Não só aprendi tanta coisa a respeito dos povos ancestrais brasileiros como escrevi dois livros cujo resultado me agradou bastante.

Quem tem o que dizer continua aqui

São 40 anos de carreira! Tenho livros infantis e adultos, mas foi a obra juvenil que me consagrou e me permitiu vivenciar tanta coisa. As editoras sempre custearam as viagens, o que me permitiu correr o Brasil de uma ponta a outra. Pude conhecer jovens que tinham pouco contato com livros e incentivá-los a ler. Encontrei profissionais da educação que desenvolveram propostas instigantes e valorosas. Entrevistei tanta gente para embasar pesquisas que coloquei nos enredos. Dividi coleções com escritores que tinham o que dizer para esse público e que compartilharam comigo o boom da literatura juvenil nos anos 80.

 Concluindo, não importa que esse mercado tenha atraído dezenas de arrivistas que focavam o que lhes parecia literatura fácil e quem sabe lucrativa. Com o tempo, quem era fraco, quem aderiu por meios questionáveis ao gênero acabou por fracassar no mercado editorial.

 Já aquele escritor sério, que elaborava linguagem, pesquisava, respeitava seu público, ah, esse continua aí, lado a lado comigo. Nós chegamos para continuar porque a gente tinha o que dizer.